
Nunca estivemos tão conectados às telas e ao mesmo tempo tão sós. Neste cenário, fazer terapia deixou de ser apenas cuidar da dor e passou a ser um gesto de resistência para continuarmos sujeitos da nossa própria vida, tendo um tempo mais lento, na sessão de terapia, para lidar com a própria subjetividade e o amadurecimento emocional, que vão de mão contrária aos algoritmos e IA que respondem a tudo em segundos.
A comunicação virtual, embora útil, empobrece o encontro, faltando o olhar, o silêncio compartilhado, a respiração e a presença. A IA, com suas respostas rápidas, pode nos acostumar a buscar soluções imediatas para dores que pedem tempo. Ela pode informar e até acompanhar, mas não substitui um vínculo humano em que alguém se compromete, se afeta e sustenta a nossa história ao longo do tempo. A terapia é o oposto da lógica da velocidade: exige tempo, presença e a coragem de ser visto por inteiro.
As telas acabam ocupando o lugar do silêncio, o tédio, a solidão e a pausa, onde justamente nascem a reflexão e a elaboração. Para Donald Winnicott, médico contemporâneo a Freud, o silêncio não é ausência e, sim, uma conquista do desenvolvimento. No texto “A capacidade de estar só” (1958), ele argumenta que essa capacidade nasce paradoxalmente na presença de outro: a criança que brinca em silêncio enquanto a mãe está por perto, sem exigir nada, internaliza uma presença confiável. Estar só na presença de alguém é a base para a vida criativa e para um sentimento de existir de verdade. Winnicott dizia que, às vezes, o paciente precisa simplesmente ser na presença do analista.
Fugimos do que sentimos, e o que não é sentido não é elaborado. Ninguém atravessa a vida sem dor, conflito ou perda. A terapia oferece um espaço protegido para compreender o que sentimos, dar sentido à nossa história e construir formas mais livres de viver. Para Alexander Lowen (1910-2008), criador da Análise Bioenergética, sentir é o que define estar vivo. Ele sustenta que a identidade e o senso de self vêm da consciência das sensações do corpo, e que quem perde o contato com o que sente perde também a vitalidade, o prazer e a capacidade de se relacionar de verdade.
Dentro da Psicologia, cada abordagem ilumina esse processo por um ângulo diferente. Por exemplo: na Psicanálise, a importância da escuta do inconsciente devolve a palavra própria e a escuta do desejo singular; na Terapia Familiar Sistêmica, os vínculos, papéis, alianças, crenças e lealdades familiares, transmitidas entre gerações; e na Análise Bioenergética, além de trabalhar com a palavra, nos traz de volta ao corpo, pois é nele que habitam nossos sentimentos e sensações.
Portanto, fazer terapia é um ato de cuidado consigo e com os outros. Não serve só para quem está em crise mas também para se conhecer, elaborar dores, fortalecer relações, viver com mais consciência, autenticidade e liberdade. A tecnologia pode ser uma grande aliada, desde que não ocupe o lugar de quem somos. Em um mundo que nos quer conectados o tempo todo, a terapia nos reconecta com o essencial: nós mesmos e os outros.
(*) Ana Isabel Zibecchi é psicóloga formada em consciência corporal, análise bioenergética, terapia familiar sistêmica e constelação familiar. É diretora de Formação, trainer local e supervisora da SABERJ (Sociedade de Análise Bioenergética do Rio de Janeiro). E-mail: [email protected].