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Você já ouviu falar em hepatite fulminante? Entenda a gravidade desta condição

Vacinação para hepatites virais A e B, uso criterioso de chás, ervas e fitoterápicos e evitar auto-medicação reduzem a probabilidade de ocorrência da doença

Saúde Em Evidência
Por: Saúde Em Evidência Fonte: dr. Gustavo Henrique Pereira
15/09/2026 às 12h14 Atualizada em 15/09/2026 às 12h25
Você já ouviu falar em hepatite fulminante? Entenda a gravidade desta condição
Gustavo Henrique Pereira, hepatologista, presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro

Hepatite Fulminante é definida como uma condição que acomete o fígado de forma rápida e intensa, causando grave perda da função hepática, além de  acometimento de outros órgãos (notavelmente a coagulação sanguínea e a função cerebral), em indivíduos sem doença hepática preexistente. 

Sua frequência é variável de acordo com a região, sendo mais comum no continente asiático e mais rara na Europa e Estados Unidos ( 6-8 casos/100.000 pessoas por ano e 0,8-1,6 comum no continente asiático respectivamente). Sua incidência mantém-se estável globalmente. Contudo, uma revisão publicada na revista médica The Lancet em 2019 observa que a incidência geral "pode ​​estar diminuindo", embora a heterogeneidade nos registros limite a certeza sobre essa tendência. 

As causas variam de acordo com a região geográfica. Em países de alto IDH predominam a toxicidade por paracetamol (acetaminofeno) e a lesão hepática induzida por medicamentos e ervas. Já na região Ásia-Pacífico e em países em desenvolvimento,  predominam as hepatites virais. Na América Latina, dados de um estudo conduzido em populações com indivíduos de até  18 anos de idade mostram que a maioria dos casos (34%) foi secundária à hepatite A, com uma porção expressiva de causa indeterminada (27%). Nessa coorte 26% dos pacientes faleceram e 50% foram submetidos a transplante de fígado. Especificamente no Brasil, é preocupante o aumento da incidência da hepatite A, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, sendo observados formas graves em indivíduos acima de 60 anos e/ou imunossuprimidos.

Apesar da sua relativa raridade, trata-se de uma importante condição de saúde pelo seu caráter dinâmico e potencial gravidade e que, consequentemente, demanda grandes esforços da equipe de saúde e recursos hospitalares. Cerca de 25% dos indivíduos acometidos por esta condição serão listados para transplante hepático urgente. Apesar de estarem em uma lista comum com pessoas com doenças crônicas do fígado como cirrose, pacientes com hepatite fulminante são priorizados em função da incapacidade de tolerar esta condição por tempo superior a poucos dias.  

A indicação de transplante será determinada por um conjunto de critérios clínicos (como idade e tempo de doença) e laboratoriais (como dosagem de bilirrubina), sendo que os mais frequentemente utilizados são os criteŕios do King's College e Clichy. Estes critérios são extremamente dinâmicos, de forma que indivíduos que inicialmente não tem indicação de transplante podem passar a tê-la em curto período de tempo. Entre os pacientes com indicação de transplante de fígado, apenas 30 a 60% efetivamente receberão um fígado. O  sucesso terapêutico, portanto depende, em grande parte, da disponibilidade de um órgão, da sua adequada captação e implantação no receptor em tempo hábil, algo que apenas sistemas robustos como o Sistema Nacional de Transplantes brasileiro é capaz de oferecer. Dentre os pacientes não listados para transplante, uma porção expressiva não será sequer candidata a esta terapia em função de comorbidades ou pela gravidade extrema da condição que os impedirá de tolerar este procedimento.  

Dada a gravidade da hepatite fulminante, torna-se fundamental a adoção de medidas de profilaxia.  As medidas de prevenção envolvem vacinação para hepatites virais A e B, uso criterioso de chás, ervas e medicamentos fitoterápicos, além de monitoramento cuidadoso durante uso de medicações sabidamente hepatotóxicas como o paracetamol e drogas antituberculose.

A hepatite fulminante pode causar instabilidade cardiovascular, lesão renal aguda, suscetibilidade a infecções e edema cerebral, de modo que o manejo destes pacientes é realizado em unidades de terapia intensiva e em conjunto por intensivistas e hepatologistas. O encaminhamento precoce para um centro que disponha tanto de unidade de terapia intensiva quanto capacidade para transplante hepático é essencial. O manejo sincrônico e afinado por estes especialistas oferece as melhores possibilidades de manejar as graves complicações associadas e prover suporte hemodinâmico, terapia de substituição renal, ventilação mecânica e vigilância rigorosa de infecções por parte da Terapia intensiva, enquanto a hepatologia orienta a terapia específica para a etiologia e a avaliação de elegibilidade para transplante hepático.

(*) Dr. Gustavo Henrique Pereira é professor da Faculdade de Medicina da UFRJ, médico do serviço de Gastroenterologia e Hepatologia do Hospital Federal de Bonsucesso e doutor em Medicina pela Universidade de Barcelona. É o atual presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ).