
Com o alarmante crescimento no número de casos de obesidade e doenças metabólicas, a ciência tem buscado novas drogas para o tratamento dessas condições, provando que tratar distúrbios metabólicos vai muito além do simples “fechar a boca”. O estigma pesado e injusto que essas pessoas carregam — com frases como “ele não tem força de vontade” ou “é relaxada” — começa a cair por terra. Esse preconceito precisa acabar, principalmente entre os profissionais da saúde; caso contrário, a busca e a adesão ao tratamento continuarão sendo dificultadas.
É exatamente nesse cenário de quebra de paradigmas que a farmacologia avançou. Com o advento de medicamentos baseados em incretinas, como a semaglutida e a tirzepatida, surgem novas terapias para doenças de cunho metabólico, independentemente do peso na balança. Os ensaios clínicos mostram perdas expressivas de peso e melhora de condições complexas, incluindo diabetes, doença hepática esteatótica (gordura no fígado) e doenças cardiovasculares.
Diante da eficácia dessas medicações injetáveis, um mito foi gerado: se o remédio tira a minha fome e me faz emagrecer tão rápido, eu ainda preciso de um nutricionista?
A resposta é sim — e muito mais do que se imagina. É preciso desconstruir a ilusão de que o remédio substitui o cuidado nutricional. Essa premissa compromete a segurança a longo prazo e afeta a própria adesão ao tratamento.
Esses medicamentos agem reduzindo drasticamente o apetite e a ingestão calórica. Sem a supervisão do nutricionista, esse exato mecanismo compromete a qualidade alimentar do paciente, acelerando a perda de massa muscular e óssea, gerando deficiências severas. Entidades científicas do mundo todo recomendam uma conduta nutricional de elite para esses pacientes. É necessário atingir metas proteicas por refeição e ajustar vitaminas e minerais a cada fase. A necessidade de cálcio de uma mulher na menopausa com osteopenia, por exemplo, é totalmente diferente da de um homem de 30 anos, mesmo que ambos tenham obesidade e usem o mesmo remédio.
Outro ponto importante: reduzir o volume do que se come não significa êxito no tratamento. Vemos pacientes perdendo peso facilmente, mas baseando o pouco que comem em alimentos ultraprocessados. Comer apenas uma fração do que se costumava, focando em calorias vazias, nos leva a um grave processo de desnutrição oculta. A escolha por alimentos in natura e minimamente processados segue sendo o centro do tratamento.
Vale destacar também a perda de peso extremamente rápida. Ela consome tecido magro, e precisamos lembrar que a estrutura mais ativa do corpo na queima de gordura é o músculo. Assim, o indivíduo estará mais leve, porém metabolicamente comprometido. No campo da estética, muitas mulheres resistem à prescrição por medo do envelhecimento facial ("rosto de Ozempic") e da queda de cabelo. Na realidade, esses quadros raramente refletem toxicidade da medicação, mas sim os efeitos de uma nutrição inadequada.
Os sintomas gastrointestinais (náuseas, diarreia, gases) são a maior causa de abandono das medicações. O que muitos não sabem é que eles são, frequentemente, um problema dietético e não apenas farmacológico. Ajustes simples — refeições menores, redução de gorduras e açúcares, aporte de fibras e mudanças no preparo — costumam resolver os desconfortos. Manejar sintomas com estratégia nutricional é o que mantém o paciente no tratamento.
Por tudo isso, o termo “canetas emagrecedoras” é uma definição péssima e simplista para medicações tão tecnológicas. Elas representam uma luz no fim do túnel e abrem uma janela incrível de oportunidades. Contudo, nessa nova era, o nutricionista assume o papel de agente promotor da preservação da massa muscular, óssea e da melhora da composição corporal. É ele quem transforma a medicação em um degrau para a melhora dos hábitos, proporcionando a manutenção dos excelentes resultados para a vida toda.
(*) Sabrina Alves Fernandes é nutricionista e doutora em Hepatologia.