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Consenso de endometriose reforça que não é normal sentir dor

Documento da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE) atualiza recomendações para tratamento

Saúde Em Evidência
Por: Saúde Em Evidência Fonte: Sérgio Podgaec
02/09/2026 às 11h23 Atualizada em 02/09/2026 às 20h38

A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo e, para grande parte delas, a dor é uma das manifestações mais relevantes da doença. Estima-se que aproximadamente 90% das pacientes convivam com dor pélvica, um sintoma que pode comprometer atividades profissionais, vida sexual, sono, saúde emocional e qualidade de vida.

É nesse cenário que a Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE), em parceria com a Comissão Nacional Especializada em Endometriose da FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), lança dois novos capítulos do Consenso Brasileiro sobre Endometriose. Os documentos abordam o tratamento farmacológico e as estratégias complementares não farmacológicas para a dor pélvica associada à doença.

Sérgio Podgaec, presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE)

As recomendações refletem uma transformação importante na maneira de compreender a endometriose. Mais do que uma doença definida por lesões que eventualmente precisam ser removidas cirurgicamente, ela é hoje entendida como uma condição inflamatória crônica e sistêmica, cujo impacto pode exigir acompanhamento prolongado e atuação de diferentes especialidades.

Essa mudança é particularmente relevante quando se discute dor crônica. Nem sempre a intensidade da dor acompanha a extensão anatômica das lesões, e diferentes mecanismos podem participar da experiência dolorosa. Por isso, controlar sintomas e recuperar qualidade de vida requer uma estratégia construída de acordo com as características e necessidades de cada paciente.

Tratamento hormonal permanece como primeira linha

No capítulo dedicado ao tratamento farmacológico, o consenso reafirma contraceptivos hormonais combinados e progestagênios isolados como opções de primeira linha, preferencialmente em uso contínuo. O objetivo é suprimir a atividade da doença e controlar os sintomas, e não promover uma cura definitiva.

Um ponto importante é que não há superioridade comprovada de uma alternativa hormonal sobre as demais. A escolha deve considerar perfil clínico, contraindicações, efeitos adversos, desejo reprodutivo e preferências da paciente. Também não existe indicação universal para tratar mulheres assintomáticas.

Os agonistas de GnRH permanecem como segunda linha e devem ser associados à terapia add-back para proteção da massa óssea. Já os antagonistas orais de GnRH, como elagolix, linzagolix e relugolix, aparecem como alternativas emergentes, embora ainda não estejam disponíveis no Brasil.

Para analgesia, recomenda-se uma abordagem escalonada, iniciada com medicamentos como paracetamol, dipirona e anti-inflamatórios não esteroides. O uso de opioides deve ser restrito. O documento também chama atenção para intervenções que ganharam visibilidade nos últimos anos: não há evidência robusta que sustente o uso de canabidiol para essa finalidade nem benefício comprovado dos implantes de gestrinona.

Manejo da dor vai além dos medicamentos

O segundo capítulo representa outro avanço ao avaliar criticamente as terapias complementares. Em vez de colocá-las à margem do tratamento, o consenso identifica quais estratégias possuem evidências de benefício e como podem ser incorporadas ao cuidado.

A fisioterapia pélvica, por técnicas manuais ou correntes elétricas, e a acupuntura estão entre as intervenções com evidências mais robustas para redução da dor. A ioga apresenta benefícios relacionados à qualidade de vida, enquanto terapia cognitivo-comportamental e mindfulness podem contribuir para melhora da dor e de sintomas de ansiedade e depressão.

No campo nutricional, a dieta mediterrânea ou anti-inflamatória e a dieta low-FODMAP concentram as evidências mais consistentes, especialmente para sintomas gastrintestinais. Suplementos antioxidantes, como vitaminas C e E e melatonina, demonstraram efeito moderado sobre a dor, mas os estudos disponíveis ainda são heterogêneos.

O consenso ressalta, entretanto, um limite fundamental: essas estratégias são adjuvantes e não devem substituir tratamentos hormonais ou cirúrgicos estabelecidos quando estes estão indicados.

Da doença à paciente

O principal significado dos novos capítulos talvez esteja justamente na integração dessas possibilidades. Em uma condição crônica e heterogênea como a endometriose, a pergunta deixa de ser apenas “qual é o melhor tratamento?” e passa a incluir “qual é o melhor tratamento para esta paciente, neste momento?”.

Isso pressupõe combinar evidência científica, experiência clínica e objetivos individuais, considerando dor, qualidade de vida, saúde mental, sexualidade, fertilidade e resposta aos tratamentos anteriores.

Elaborado a partir de revisão crítica da literatura e da discussão entre especialistas, o Consenso Brasileiro sobre Endometriose é concebido como um documento vivo, sujeito à incorporação de novos conhecimentos à medida que demonstrem benefício clínico consistente.

Ao atualizar as recomendações para o manejo da dor, SBE e FEBRASGO reforçam uma direção que tende a orientar cada vez mais a assistência à endometriose: menos tratamentos padronizados e isolados e mais cuidado individualizado, multidisciplinar, baseado em evidências e centrado na paciente.

(*) Dr. Sérgio Podgaec  é presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBE) e professor livre docente da Disciplina de Ginecologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP)