
A internet e as redes sociais ilustram a capacidade infinita do ser humano em desenvolver tecnologia, inaugurando uma era revolucionária da comunicação. Na atualidade, as redes sociais dominam a comunicação com estratégias diferentes de domínio das massas.
Apesar de ser algo recente em nossa sociedade, na Medicina o efeito tem sido devastador, sobretudo porque conta com três aliados: a crise de princípios, a penúria técnica de profissionais formados em escolas médicas esporuladas no país e a falta de marcos regulatórios claros para o uso deste meio de comunicação.
Você provavelmente já se deparou com alguém ou uma imagem criada por inteligência artificial ou, ainda, com a imagem de alguma personalidade manipulada por IA, falando das benesses e indicações de produtos e medicamentos, terapias e fitoterápicos. Os feeds das redes sociais, hoje em dia, são inundados por isso.
Já vi até as antigas benzedeiras, vovós fofinhas, tentativas de fisgar as pessoas pela memória afetiva, do passado, ou até mesmo profissionais gabaritados e artistas famosos dando suas opiniões sobre produtos que, ao invés de ajudarem no tratamento, podem prejudicar, e muito.
Não é todo mundo que pode tomar a mesma erva, o mesmo chá, o mesmo medicamento, tampouco ter a mesma prescrição. Nós, médicos, sempre fazíamos este alerta em relação à automedicação, àquela inofensiva aspirina que todo mundo tinha na gaveta. Mas agora, precisamos ampliar o alerta, porque a inundação de propagandas sobre produtos falsos está em níveis perigosos, que ameaçam a saúde das pessoas.
A desinformação transmitida com requinte tecnológico por alguém que se diz profissional de saúde contrasta com a qualidade técnica e moral do espalhador de falsas informações. Isso pavimentou o caminho para o desfile da anti-ciência, dos incautos e dos desonestos.
O que estamos vendo nos consultórios e nos hospitais são pacientes que agora adoecem por se tornarem vítimas de falsas promessas de suplementos, fórmulas, injetáveis e hormônios. O sistema adoece onerado pela sinistralidade crescente.
Já o comunicador digital lucra e investe cada vez mais nesta forma vil de comunicar para enriquecer sem moralidade e princípios , ao tempo em que ignora o triângulo equilátero da medicina: Ética, Ciência e Humanismo.
Comunicar é arte e técnica, mas a tecnologia da comunicação atual vai muito além. Agrega ferramentas que dispensam elaboração mental mais aprofundada, o que gera de descuidos éticos e qualitativos da informação.
O que era para ser um avanço espetacular em benefício da humanidade, torna-se ameaça e potente arma para comercializar, vender, lucrar e manipular sem limites éticos e humanísticos.
Dominar a comunicação sempre foi uma estratégia poderosa e perigosa pelo poder de escravizar mentes. Serviu para unir e desenvolver como ocorreu com o telex, o rádio, a estrada de ferro e o telefone, mas serviu também para oprimir através de guerras, ditaduras e todo tipo de opressão.
Hitler a usou intensamente na Segunda Guerra. Além do rádio e do telefone já existentes, criou as pequenas motos tripuladas por dois militares para facilitar a comunicação entre as tropas do “front”. Isso permitiu a guerra em ˜blitz˜, desnorteando os aliados. Criou também o ministério da propaganda, onde Goebbels trabalhava com a norma de repetir mentiras até que o povo as entendesse como verdades.
A internet foi um projeto de comunicação militar da Guerra Fria que só foi disponibilizada para os civis depois da queda do Muro de Berlim.
Comunicar eficientemente é estratégia para quem quer vencer, mas a ética é o freio para evitar o "vale tudo” desse poder estrondoso.
Excesso de informação condiciona o cérebro humano para a superficialidade. Aprofundar-se na informação ou na qualidade da fonte deixou de ser exigência e abriu caminho para uso aético da comunicação e a consequente normalização da mentira e do absurdo.
Portanto, precisamos estar sempre atentos à fonte do que vemos ou do que recebemos pelos canais de comunicação como o WhatsApp. A premissa é a mesma que temos na nossa vida: não confie em tudo que você ouvir por aí. Questione. Pesquise. Converse com seu médico. O que serve para sua prima ou tia pode não ser bom para você.
(*) Raymundo Paraná é hepatologista, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)