
De acordo com a tradição católica, São Cosme e São Damião eram irmãos gêmeos e médicos que exerciam a medicina sem aceitar qualquer tipo de pagamento. A eles é atribuída também aquela que seria a primeira cirurgia de transplante da humanidade, episódio retratado por diversos artistas ao longo dos séculos: o implante da perna de um etíope falecido em um sacristão que havia perdido uma de suas pernas.
Cosme e Damião teriam sido perseguidos e mortos no dia 27 de Setembro por volta do ano 300 d.C. Em homenagem àqueles que são considerados padroeiros dos médicos, essa data também foi escolhida no Brasil para celebrar o Dia Nacional da Doação de Órgãos, e setembro passou a abrigar a Campanha Nacional de Doação de Órgãos. Assim, todos os anos, o Brasil “veste-se” de verde durante o mês de setembro para chamar a atenção da sociedade para a importância da doação de órgãos e ampliar o diálogo sobre o tema, contribuindo para reduzir dúvidas, mitos e desinformação.
O Brasil ocupa lugar de destaque no cenário mundial dos transplantes, e é considerado o maior programa público de transplantes do mundo, sendo financiado em sua quase totalidade pelo Sistema Único de Saúde. O programa de transplantes brasileiro é estruturado, regulado e transparente, e os dados da atividade de doação e transplantes no país estão disponíveis para qualquer cidadão no site da ABTO, por meio do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), em uma parceria com o Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde: https://site.abto.org.br/conteudo/rbt/
Os números mais recentes do RBT mostram o tamanho do nosso programa. Em 2025, o Brasil realizou 6.697 transplantes renais, 2.573 transplantes hepáticos, 427 cardíacos, 142 pancreáticos e 96 pulmonares, além dos transplantes de tecidos e células hematopoiéticas. Apesar desses números expressivos, a demanda continua sendo muito maior que a oferta. Ao final de 2025, 41.238 pacientes estavam ativos em lista de espera por um transplante de órgão sólido no Brasil. A maior parte deles, 38.925 pacientes, aguardava um transplante renal, de forma que ainda há muito o que avançar.
Um dos principais obstáculos no processo de doação de órgãos continua sendo a recusa familiar, o que ocorre em quase metade dos casos. Esse dado torna ainda mais importante uma das mensagens centrais do Setembro Verde: quem deseja ser doador precisa conversar sobre isso com a família e deixar claro esse desejo. Isso porque, no Brasil, a doação após a morte depende da autorização dos familiares. Portanto, não basta que a pessoa tenha, em vida, a intenção de doar. É fundamental que essa vontade seja conhecida por aqueles que, no momento da entrevista para doação, terão a responsabilidade de autorizar o procedimento. Falar sobre o assunto previamente certamente tornará essa decisão mais clara e mais segura para a família.
E como essa é uma questão que diz respeito a toda a população, o Setembro Verde é marcado por diversas ações organizadas pelas Centrais Estaduais de Transplantes, Organizações de Procura de Órgãos, Equipes Hospitalares de Doação para Transplantes, hospitais, universidades, sociedades médicas e outras instituições. São palestras, cursos, entrevistas, caminhadas, ações educativas e inúmeras outras iniciativas dirigidas tanto aos profissionais de saúde quanto à população.
Embora a maior parte dessas ações esteja concentrada em setembro, a ideia é manter o “tônus” do Setembro Verde durante todo o ano. Precisamos falar sobre doação de órgãos de forma contínua e natural, levando esse tema para dentro das famílias e das rodas de conversa. Uma conversa simples hoje pode, no futuro, representar a possibilidade de salvar ou transformar várias vidas.
(*) Dra. Tainá de Sandes, médica nefrologista, é presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos) no biênio 2026-27, professora adjunta da Universidade Federal do Ceará e livre-docente pela Universidade Federal de SP.