Terça, 15 de Setembro de 2026
23°C 28°C
Recife, PE
Publicidade

Daya Moraes: quando a música vira cinema e ganha o palco

Em “Dama do Jogo”, artista gaúcha transforma dez canções, um curta-metragem e um espetáculo em capítulos de uma mesma história sobre força, escolhas e autonomia feminina

Graciela Binaghi
Por: Graciela Binaghi
15/09/2026 às 15h49 Atualizada em 15/09/2026 às 16h30
Daya Moraes: quando a música vira cinema e ganha o palco
Daya Moraes - Foto de Renata Dubois

“Dama do Jogo” não é apenas um álbum. É um universo artístico em que música, cinema e performance se encontram para falar de mulheres que enfrentam expectativas, atravessam conflitos e decidem assumir o comando da própria história.

Há momentos em que lançar um disco deixa de ser suficiente. Para Daya Moraes, o novo trabalho precisava ir além das plataformas digitais e encontrar outras formas de existir. Assim nasceu Dama do Jogo, projeto que transforma música, cinema e performance em diferentes faces de uma mesma narrativa.

Cantora, compositora e performer gaúcha, Daya construiu o projeto como uma experiência artística integrada. São dez músicas autorais, um curta-metragem de ficção e um espetáculo concebidos para dialogar entre si. O resultado é uma obra sobre mulheres, mas também sobre movimento, escolhas, desejo, vulnerabilidade, pressão, autoestima e a conquista de autonomia.

A metáfora está no próprio título. Como no tabuleiro de xadrez, a dama é uma peça capaz de avançar em diferentes direções. No universo criado por Daya, ela representa a mulher que deixa de apenas reagir às circunstâncias para assumir o controle de sua trajetória.

“Avançamos as casas do tabuleiro para chegarmos onde queremos chegar.”

A frase da artista resume a ideia central do projeto. Mais do que vencer uma partida, trata-se de escolher os próprios movimentos.


Uma história em três atos

O primeiro ato é musical. Lançado na primeira semana de setembro, Dama do Jogo reúne dez faixas que funcionam como capítulos de uma narrativa. Entre os títulos estão Minha Voz (Intro), Sob Pressão, Enquanto Eu Espero, Se Atreva, A Dama Avança (Supera!), Expectativas, Sem Pudor, Flores Que Não Ganhei e Potência (Final).

As canções percorrem diferentes estados emocionais e experiências femininas, abordando pressões, expectativas, relações, desejo, vulnerabilidade, autoestima e superação. Musicalmente, o trabalho dialoga com referências do pop, R&B e hip hop.

Mas a narrativa não termina quando a última faixa chega ao fim.

O segundo ato é DAMA, curta-metragem de ficção dirigido por Lisiane Cohen. A obra nasceu durante a concepção do álbum, quando Daya percebeu que a narrativa das dez canções poderia ganhar uma dimensão maior no audiovisual. Em vez de transformar as músicas em uma sequência de videoclipes, a equipe optou por construir uma história ficcional própria.

O filme acompanha Luana, uma mulher que precisa romper padrões e expectativas para assumir o controle da própria trajetória. Não é uma cinebiografia de Daya, embora dialogue com questões que atravessam a experiência da artista.

“É uma ligação, é um círculo.”

É assim que Daya define a relação entre álbum e filme. As duas obras podem ser apreciadas separadamente, mas, juntas, revelam novas camadas da mesma criação.

 

Quando a representatividade está também nos bastidores

A escolha por uma equipe majoritariamente feminina é parte importante da concepção de Dama do Jogo. Além da direção de Lisiane Cohen, o projeto reúne mulheres em funções fundamentais da realização, entre elas Carmen Fernandes, na direção de arte; Fernanda Kern, na montagem; e Renata Dubois, na produção executiva.

A presença feminina, portanto, não está apenas no discurso do filme. Ela também participa de sua construção.

“A representatividade não pode estar somente no discurso, precisa estar também na tela e nos bastidores.”

A frase explicita uma das preocupações de Daya: fazer com que a ideia de protagonismo feminino esteja presente tanto na narrativa quanto no processo de produção.

O resultado é um projeto que transforma a própria forma de fazer arte em parte da mensagem.

 

Do Rio Grande do Sul para o mundo

A trajetória de Dama do Jogo começou em Porto Alegre, com apoio do Fumproarte, mas atravessou fronteiras geográficas e artísticas.

O álbum foi gravado majoritariamente em São Paulo, enquanto o curta foi produzido no Rio Grande do Sul. O projeto também contou com a participação do produtor paulista Master Pe, aproximando cenas e profissionais dos dois estados.

O curta teve pré-estreia na Casa de Cultura Mario Quintana e posteriormente passou a circular também fora do Brasil. A obra foi selecionada para o Lift-Off Filmmaker Sessions – Volume 10, do Lift-Off Global Network, no Reino Unido.

Para uma produção independente, a circulação internacional amplia o alcance de uma história que nasceu em um contexto local, mas aborda questões capazes de atravessar diferentes territórios.

E há ainda uma escolha que reforça o caráter democrático do projeto: DAMA está disponível gratuitamente no YouTube.

“Quanto mais pessoas tiverem acesso, mais iremos debater assuntos importantes.”

 

O tabuleiro chega ao palco

Depois de existir como música e cinema, Dama do Jogo ganhou sua terceira dimensão no palco.

No último dia 12 de setembro, Daya apresentou o show de lançamento do álbum no Teatro de Câmara Túlio Piva, em Porto Alegre. A apresentação levou para o público a atmosfera construída ao longo das músicas e do curta e marcou uma nova etapa do projeto.

O espetáculo representa, de certa forma, o encontro de todas as peças do tabuleiro. O que começou na composição ganhou imagens no cinema e, finalmente, encontrou a presença física do público.

No palco, Daya não apenas apresenta as canções. Ela conduz o espectador para dentro do universo que construiu.

Criar quando os recursos são limitados

Existe ainda uma outra história por trás de Dama do Jogo: a história de sua própria realização.

Construir um álbum, um filme e um espetáculo conectados exige equipe, planejamento, deslocamentos, equipamentos, ensaios, gravações e recursos financeiros. Para uma artista independente, transformar uma proposta dessa dimensão em realidade significa também encontrar soluções diante das limitações de produção.

É nesse ponto que o Fumproarte assume importância decisiva.

O financiamento público possibilitou que a proposta ganhasse escala e que uma obra autoral pudesse atravessar diferentes linguagens. O projeto mostra, na prática, como políticas públicas de cultura podem criar condições para que artistas independentes desenvolvam trabalhos que dificilmente seriam realizados apenas com recursos próprios.

Ao mesmo tempo, o processo revela o esforço necessário para transformar financiamento em criação artística: adaptar cronogramas, reunir profissionais, administrar recursos e preservar a identidade de uma obra em meio às dificuldades da produção.

 

Mais do que um disco

No fim, talvez seja justamente essa a força de Dama do Jogo: o projeto não pede que o público escolha entre música, cinema ou espetáculo.

Ele convida a experimentar os três.

As dez faixas apresentam diferentes estados emocionais. O curta cria personagens e situações para ampliar essas questões. O show devolve tudo ao corpo e à presença, estabelecendo uma relação direta com quem está diante do palco.

É uma obra que se movimenta.

E talvez essa seja a melhor tradução para a trajetória da própria “dama” criada por Daya: avançar, mudar de direção, enfrentar obstáculos e continuar jogando.

“Que ninguém que assistir saia do mesmo jeito.”

A expectativa da artista, registrada antes da estreia, sintetiza o propósito do projeto. Dama do Jogo não pretende apenas contar uma história sobre mulheres que encontram sua força. Quer provocar reconhecimento, reflexão e movimento.

Porque, nesse tabuleiro, a protagonista não espera a próxima jogada.

Ela escolhe o próximo movimento.


Álbum: Dama do Jogo, de Daya Moraes
Onde ouvir: plataformas digitais
Curta-metragem: DAMA
Onde assistir: YouTube, gratuitamente aqui
Direção: Lisiane Cohen
Instagram: Prazer Daya

 

Fotos:
Equipe do Curta-metragem: Renata Dubois
Palco: Rafael Giordano e Yasmin Dal Soler