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ÒKUN leva teatro às águas da Represa Billings, no Grajaú

Espetáculo do Grupo Identidade Oculta reúne teatro, música e dança em percurso cênico que aborda memória, resistência e questões ambientais

Graciela Binaghi
Por: Graciela Binaghi
07/09/2026 às 12h12 Atualizada em 07/09/2026 às 12h17
ÒKUN leva teatro às águas da Represa Billings, no Grajaú
ÒKUN Cura Mar de Dentro – Foto de André Bueno

Às margens da Represa Billings, no Grajaú, a paisagem deixa de ser apenas cenário e passa a integrar a dramaturgia de ÒKUN: Cura Mar de Dentro, novo espetáculo do Grupo Identidade Oculta. Com dramaturgia e direção de Paulo Henrique Sant’Anna, a montagem reúne oito atores em uma experiência que combina teatro, música, dança e ritual para abordar memória, resistência, ancestralidade e as questões sociais e ambientais do extremo sul de São Paulo.

A temporada gratuita acontece de 12 a 22 de setembro, às terças, sextas e sábados, às 14h, no Parque Linear Cantinho do Céu. Nos dias 25, 26 e 29 de setembro, também às 14h, as apresentações serão realizadas no Parque Linear Lago Azul. Nesta segunda etapa, parte da montagem acontece dentro de uma embarcação, em uma rota pela Represa Billings, com artistas e espectadores compartilhando a travessia.

A escolha do percurso está diretamente ligada à proposta dramatúrgica. Para Sant’Anna, caminhar e atravessar juntos são formas de produzir conhecimento e experiência. “Esse espetáculo propõe uma travessia, um rito coletivo em busca de cura”, afirma o diretor.

A criação nasceu de perguntas dirigidas ao próprio território: o que diria o vento se fosse possível ouvi-lo? O que a represa teria a contar? Quais memórias estão guardadas no chão, nas plantas, nas paredes e nas águas? A partir dessas questões, manifestos e experimentos cênicos deram forma à dramaturgia.

O espetáculo procura ir além da denúncia das desigualdades que atingem populações pretas e periféricas. Enchentes, estiagens, mobilidade, falta de infraestrutura, transformações urbanas e deslocamentos de moradores aparecem relacionados às memórias e à potência cultural da região.


A represa como personagem

O título Òkun, palavra de origem iorubá associada ao mar, remete à ideia de imensidão e aos mistérios do oceano. Segundo Sant’Anna, recuperar uma palavra pouco conhecida também representa uma tentativa de resgatar uma memória apagada pelas travessias escravistas no Atlântico.

A relação do diretor com as águas da Billings é antiga. Nascido no território, Sant’Anna afirma que a represa faz parte de sua trajetória desde a infância e está presente em seus textos desde Histórias do Velho Batista, espetáculo de 2011.

Em ÒKUN, porém, a proposta não é apenas representar a represa, mas escutá-la. A vegetação sobre a água, os animais, os materiais usados nas casas e as histórias dos moradores são incorporados à criação. A obra também preserva a memória de Ferrugem, artista, ativista e articulador cultural ligado ao território, cuja morte violenta marcou a comunidade.

A música tem papel central na montagem. As canções autorais são interpretadas ao vivo pelos atores e ajudam a construir ritmos, atmosferas e transições ao longo do percurso. Para o diretor, a música prepara o corpo do espectador para a experiência cênica.

Ao caminhar, ouvir e observar, o público deixa a posição tradicional de espectador e passa a fazer parte da paisagem. A ideia de cura proposta pelo espetáculo, portanto, está relacionada não apenas ao indivíduo, mas também à conexão entre corpo, território, memória e coletividade.


Teatro produzido na periferia

A montagem marca um momento importante para o Grupo Identidade Oculta, que, após 21 anos de atuação no Grajaú, conquista pela primeira vez o Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. A política pública viabiliza a realização do projeto e reforça a possibilidade de produção e circulação artística fora do eixo central da cidade.

Fundado em 2005, a partir do Programa Vocacional, o coletivo tem o território como base para suas pesquisas e criações. O grupo desenvolve trabalhos relacionados à ancestralidade, memória, oralidade, espiritualidade e cultura popular, em diálogo com o teatro de rua.

A trajetória também deu origem à Casa Identidade Oculta, espaço de arte e cultura no Jardim Gaivotas. ÒKUN: Cura Mar de Dentro é o oitavo espetáculo do coletivo e resulta de uma pesquisa sobre ancestralidade, existências pretas e periféricas e a relação da comunidade com as águas da Represa Billings.

 

 

 

ÒKUN: Cura Mar de Dentro
Grupo Identidade Oculta
Classificação: livre | Duração: 90 minutos | Gratuito
Reservas: pelo Sympla

12 a 22 de setembro, terças, sextas e sábados, às 14h
Parque Linear Cantinho do Céu
Rua Nossa Senhora de Fátima, 82 – Grajaú, São Paulo - SP

25, 26 e 29 de setembro, às 14h
Parque Linear Lago Azul
Rua Beija-Flor de Cactos – Grajaú, São Paulo - SP

Parte das apresentações no Parque Linear Lago Azul será realizada em embarcação, com público e artistas durante a travessia pela Represa Billings.