Terça, 15 de Setembro de 2026
23°C 28°C
Recife, PE
Publicidade

Filme revela trajetória das Cozinhas Solidárias no combate à fome

“Vem Comer com a Gente – Cozinhas Solidárias” acompanha cinco personagens em diferentes regiões do país e revela como os espaços de alimentação gratuita também se tornaram lugares de acolhimento, organização social e cidadania

Graciela Binaghi
Por: Graciela Binaghi
15/09/2026 às 10h26
Filme revela trajetória das Cozinhas Solidárias no combate à fome
Vem Comer Com A Gente - Eliane de Araújo Santos (Lili), Porto Alegre (RS)-Frame: Divulgação

Cinco anos depois do surgimento das primeiras Cozinhas Solidárias, o documentário Vem Comer com a Gente – Cozinhas Solidárias percorre diferentes regiões do Brasil para mostrar como uma iniciativa criada durante a pandemia de Covid-19 se transformou em uma política pública nacional de combate à fome.

Dirigido pelo documentarista Thomaz Pedro, o filme será lançado em 17 de setembro, no Espaço Petrobrás de Cinema, em São Paulo, e ficará disponível online até 2 de outubro. Depois desse período, a produção seguirá para um circuito de Distribuição de Impacto, com sessões em espaços estratégicos, voltadas a públicos, organizações e comunidades relacionadas ao tema, além da participação em festivais de cinema.

Mais do que registrar a oferta de refeições gratuitas e saudáveis, o documentário procura observar o que acontece ao redor do prato de comida. A câmera acompanha pessoas que cozinham, comem, trabalham, convivem e se organizam nesses espaços, revelando como as Cozinhas Solidárias passaram a desempenhar diferentes funções nos territórios onde estão inseridas.

“Acompanho as Cozinhas Solidárias desde o começo. Estive ali com uma câmera quando as primeiras experiências surgiram, durante a pandemia, e vi esse projeto crescer”, afirma Thomaz Pedro. Segundo o diretor, o filme também nasceu do desejo de apresentar a um público mais amplo uma realidade que acompanha há anos.


Da emergência alimentar à política pública

A história das Cozinhas Solidárias começou em 2021, em meio à crise sanitária provocada pela Covid-19. Enquanto parte da população podia permanecer em casa, trabalhadores das periferias continuavam circulando pelas cidades e muitas famílias enfrentavam dificuldades para colocar comida na mesa.

Foi nesse contexto que o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) criou as primeiras cozinhas. Instalados principalmente nas periferias, os espaços inicialmente funcionavam por meio da organização do movimento social. Com o crescimento da iniciativa, porém, a proposta ultrapassou os limites da atuação do MTST e, em 2023, passou a integrar uma política pública nacional de combate à fome.

Atualmente, são 1.406 cozinhas habilitadas e 221 entidades gestoras do Terceiro Setor credenciadas. Desse total, 470 cozinhas recebem apoio financeiro por meio do programa, em parcerias formalizadas com 20 entidades gestoras. Até a contagem mais recente, aproximadamente 13 milhões de refeições já haviam sido distribuídas, além do encaminhamento de cerca de 21 toneladas de alimentos da agricultura familiar às cozinhas.

 

Cinco personagens, diferentes retratos de uma mesma rede

O documentário parte da função mais urgente das Cozinhas Solidárias — enfrentar a fome — para revelar outras dimensões desses espaços. Ao longo do filme, eles aparecem como pontos de encontro, acolhimento, cuidado, formação política, trabalho e construção coletiva.

“Ao nos aproximarmos desses personagens, a gente entende que as Cozinhas Solidárias, em primeiro lugar, são essenciais no combate à fome no Brasil, mas são muito mais do que isso. Elas são espaço de solidariedade, de afeto e de cidadania”, afirma Thomaz.

A diversidade de experiências é apresentada por meio de cinco personagens em cidades como Rio de Janeiro, Santo André e Santa Isabel, em São Paulo, Maceió e Porto Alegre.

No Rio de Janeiro, Jonathan é entregador de aplicativo e encontra na cozinha mais do que uma refeição. O local serve como ponto de parada para trabalhadores, que podem comer, descansar, conversar e discutir as condições de trabalho. A cozinha também se transforma em espaço de articulação e mobilização dos trabalhadores de aplicativo.

Em Maceió, Mila conhece os dois lados da relação com a fome. Depois de ter vivido essa experiência, hoje trabalha para alimentar outras pessoas. A cozinha em que atua está no centro de uma ocupação do MTST e reúne, além da alimentação, ações de saúde, atividades para crianças, capoeira, formação e agrofloresta. “Eu digo que é um tripé, é a segurança alimentar, é a cidadania que a gente desenvolve, e é o fortalecimento da democracia”, resume.

Em Santo André, Patrícia, mãe solo e chefe de família, tem na cozinha um espaço que atravessa a rotina dela e dos filhos. Além da alimentação, o local representa convivência, apoio e pertencimento. Também é ali que acontecem cultos evangélicos frequentados por Patrícia. “É um lugar de carinho, amor. Compreende as pessoas, né? Aqui se entende o lado de todo mundo”, afirma no filme.

A relação entre alimentação e produção aparece na história de Fernando, em Santa Isabel. Agricultor familiar e fornecedor das Cozinhas Solidárias, ele mostra uma etapa que normalmente permanece distante do consumidor: o trabalho de quem planta, colhe e organiza a produção. Nesse percurso, as cozinhas também aparecem como parte de uma cadeia econômica que cria canais de comercialização para pequenos produtores.

Em Porto Alegre, Lili está entre as pessoas que fazem a cozinha funcionar diariamente. O espaço acolhe pessoas em situação de rua e cria vínculos que vão além da refeição. Em alguns casos, a participação chega ao trabalho voluntário na própria cozinha, criando novas possibilidades para quem conseguiu superar situações de vulnerabilidade.

 

O cotidiano como narrativa

Em vez de transformar o documentário em uma exposição didática sobre as Cozinhas Solidárias, Thomaz Pedro opta por acompanhar os personagens e deixar que o cotidiano revele a dimensão dos espaços.
Gestos, conversas, deslocamentos, refeições e atividades coletivas constroem, pouco a pouco, um retrato que ultrapassa a questão alimentar. A cozinha deixa de ser apenas o lugar onde se prepara e distribui comida para aparecer como um território de relações sociais.

Essa perspectiva permite que o filme conecte temas como segurança alimentar, trabalho, agricultura familiar, saúde, participação política, democracia e cidadania a histórias individuais.

 

Trailer

 

Um olhar documental sobre questões sociais

Documentarista, diretor de fotografia, pesquisador e professor do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, Thomaz Pedro é graduado em Comunicação e Multimeios e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Doutor pela USP, desenvolveu pesquisa sobre produção audiovisual indígena no Alto Xingu.

Entre seus trabalhos estão os documentários premiados Tapajós Ameaçado, Osiba Kangamuke – Vamos lá, criançada, Terminal 3 e Surara, a luta pela terra Tupinambá.

 

 

Filme terá circuito de Distribuição de Impacto

Após a temporada online, Vem Comer com a Gente – Cozinhas Solidárias seguirá para uma etapa de Distribuição de Impacto, estratégia que busca ampliar o alcance social de uma produção audiovisual.

A proposta é levar o filme a territórios, organizações, comunidades e públicos diretamente relacionados às questões apresentadas na obra. As sessões podem ser acompanhadas de encontros, debates, articulações e outras iniciativas capazes de prolongar, fora da tela, as discussões provocadas pelo documentário.

Assim, a circulação do filme passa a fazer parte da própria proposta da produção: não apenas contar a história das Cozinhas Solidárias, mas contribuir para ampliar o debate sobre fome, alimentação, solidariedade e cidadania no Brasil.

 

 

 

Vem Comer com a Gente – Cozinhas Solidárias
Direção: Thomaz Pedro
Espaço Petrobrás de Cinema
Rua Augusta, 147, São Paulo – SP.
Lançamento: 17 de setembro de 2026
Horário: 19h30
Duração: 70 minutos
Ano: 2026
Produção: Araípe
Realização: Ministério da Cultura e Instituto Nossa Jornada