
O Instituto Moreira Salles (IMS) apresenta, a partir de 19 de setembro, em sua unidade Paulista, a exposição “Quanto mais desejo, mais invento o que vejo”, dedicada à trajetória de Fernando Lemos (1926–2019), artista português naturalizado brasileiro cuja produção atravessou fotografia, desenho, pintura, poesia, ilustração e design gráfico. Reunindo cerca de 400 trabalhos, muitos deles inéditos, a mostra percorre mais de sete décadas de atividade e integra as celebrações do centenário de nascimento do artista.
Nascido em Lisboa, Lemos participou do movimento surrealista português no final dos anos 1940. Em 1953, em razão do contexto político da ditadura de António de Oliveira Salazar, transferiu-se para o Brasil, país onde construiu grande parte de sua trajetória e viveu até a morte, em 2019. Naturalizado brasileiro em 1960, estabeleceu-se principalmente em São Paulo e tornou-se uma figura de atuação múltipla no ambiente cultural da cidade.
A exposição parte do conceito de “desocultação”, ideia central na obra de Lemos e associada à possibilidade de revelar aquilo que permanece escondido ou ainda não percebido. Para o curador Thyago Nogueira, esse princípio atravessa diferentes linguagens do artista e se manifesta tanto na fotografia quanto no desenho e na poesia. O próprio título da mostra foi retirado de um verso do poema “Quanto mais desejo”, aproximando desejo, imaginação e criação artística.
O percurso reúne fotografias, desenhos, pinturas, projetos gráficos, documentos e escritos, permitindo acompanhar não apenas obras acabadas, mas também processos de criação. O acervo do artista, incorporado ao IMS em 2019, foi fundamental para essa abordagem, ao lado de materiais preservados pela família.
Entre os destaques estão registros fotográficos de personalidades da cultura brasileira, como Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Wyllis de Castro e Hércules Barsotti. A fotografia, entretanto, não aparece isolada. Na produção de Lemos, ela estabelece relações constantes com o desenho e a poesia, formando uma espécie de sistema de vasos comunicantes em que uma linguagem alimenta e transforma a outra.
A trajetória do artista também esteve ligada à vida cultural e política brasileira. Nos anos 1960, Lemos dirigiu o estúdio Maitiry e participou, ao lado de outros profissionais, da fotografia do filme Compasso de espera, de Antunes Filho, obra posteriormente reconhecida por sua abordagem da questão racial. Em 1978, produziu um cartaz em defesa da anistia aos presos políticos. Também participou de iniciativas ligadas à cultura, à educação e às políticas públicas, incluindo a estruturação do Instituto de Desenvolvimento de Arte e Cultura (Idart) e a direção do Centro Cultural São Paulo, em 1983.
Arte para crianças
Essa dimensão pública e educativa de seu trabalho ganha outro contorno na exposição quando a mostra recupera a atuação de Lemos na produção editorial e na educação infantil. Ao lado do escritor Sidónio Muralha, ele fundou a editora Giroflé, dedicada à publicação de livros para crianças elaborados por artistas e escritores de destaque, entre eles Cecília Meireles e Maria Bonomi.
O projeto refletia uma preocupação que acompanhou Lemos: a defesa da alfabetização visual das crianças e da produção de materiais didáticos capazes de estimular o interesse pelo desenho e pelas artes. A iniciativa contou com o apoio de empresários e intelectuais, como Fanny Abramovich (uma das mais influentes autoras da literatura infanto-juvenil), Max Feffer e Darcy Ribeiro, mas foi encerrada em 1964, pouco depois do golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil.
O próprio Lemos também ilustrou livros destinados ao público infantil. Entre eles está Sexo e educação é natural, escrito por Sabá Gervásio para crianças de 4 a 8 anos e publicado em 1969, no contexto imediatamente posterior à promulgação do AI-5. A presença desse material na exposição amplia a compreensão sobre um aspecto menos conhecido de sua produção e evidencia o interesse do artista em aproximar a arte das novas gerações.
A atenção dedicada ao universo infantil dialoga com sua concepção mais ampla de educação visual. Para Lemos, o desenho não era apenas uma atividade artística, mas também uma forma de desenvolver a percepção e a capacidade de compreender o mundo. Essa perspectiva ajuda a entender por que sua produção editorial se relacionou tão diretamente com sua pesquisa gráfica e com sua experiência como artista visual.
Outro núcleo da exposição, “Arte no front”, evidencia a dimensão política de sua produção e sua participação em diferentes momentos da vida pública brasileira. Além do cartaz pela anistia, estão presentes trabalhos e documentos relacionados a campanhas e ações de caráter social e cultural. Lemos participou, por exemplo, de iniciativas de conscientização sobre HIV/Aids, de uma exposição em homenagem aos 50 anos do ataque nuclear a Hiroshima e de uma campanha relacionada ao Timor-Leste.
Entre sonhos e fotografias
No núcleo final, “Sonhos e pesadelos”, a exposição retorna ao universo mais íntimo do artista. Manchas opacas, formas difusas, aquarelas, desenhos e pinturas revelam uma produção voltada a medos, desejos, envelhecimento e limites físicos. É também nesse contexto que aparecem as chamadas “Ex-fotos”, realizadas entre 2001 e 2009.
Nessa série, Lemos interveio com tinta e riscos sobre cópias de fotografias rejeitadas, transformando a própria imagem fotográfica em matéria de reflexão. O procedimento questiona a aparência e o narcisismo associados à representação, ao mesmo tempo em que retoma uma prática recorrente em sua obra: apagar, alterar ou revelar para produzir novas possibilidades de percepção.
A organização da mostra permite perceber esse movimento entre linguagens e momentos distintos. Esboços, anotações e projetos encontrados no arquivo ajudam a revelar a gênese de trabalhos posteriores, oferecendo ao público uma perspectiva mais próxima do processo criativo. Mais do que apresentar uma retrospectiva cronológica, a exposição procura evidenciar como Lemos construiu, ao longo de décadas, uma obra marcada pela experimentação e pelo trânsito permanente entre diferentes formas de expressão.
A exposição é realizada no contexto das comemorações do centenário de Fernando Lemos no Brasil e em Portugal, em parceria com a Fundação Cupertino Miranda, do Porto, e a Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa. A curadoria é de Thyago Nogueira, com assistência curatorial de Laura Sapucaia e pesquisas de Ângelo Manjabosco e Carolina Natividade da Cruz.
O catálogo da exposição também será lançado em 19 de setembro e reunirá mais de 300 obras, além de textos de pesquisadores e especialistas como André Pitol, Maria do Carmo Serén, Tereza Siza, Vera Beatriz Siqueira, Rosely Nakagawa, Thyago Nogueira, Ângelo Manjabosco, Laura Sapucaia e Carolina Natividade da Cruz.
“Quanto mais desejo, mais invento o que vejo” fica em cartaz no IMS Paulista até 7 de fevereiro de 2027. A visitação é gratuita.
Quanto mais desejo, mais invento o que vejo
IMS Paulista
Avenida Paulista, 2424, 8º andar, Bela Vista, São Paulo - SP.
Visitação: de 19 de setembro a 7 de fevereiro de 2027
Terça a domingo e feriados, das 10h às 20h
Entrada gratuita