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Quando o monstro reivindica o direito de desejar

Inspirado em conto de Caio Fernando Abreu, espetáculo da Célula de Criação Homograma ganha nova montagem e chega a São Paulo questionando os limites impostos aos corpos e às sexualidades dissidentes

Graciela Binaghi
Por: Graciela Binaghi
02/09/2026 às 09h30 Atualizada em 02/09/2026 às 11h51
Quando o monstro reivindica o direito de desejar
Pequeno Monstro - Foto de Ezequiel Vieira

O que transforma alguém em monstro? O desejo? O corpo? A diferença? Ou o olhar de uma sociedade que ainda determina quais afetos podem existir sem precisar ser escondidos?  

É a partir dessas perguntas que Pequeno Monstro, da Célula de Criação Homograma, retorna aos palcos em uma nova montagem. Inspirado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu, o espetáculo chega a São Paulo depois de um processo de recriação que atravessou Ceará, Minas Gerais e São Paulo, incorporando novas experiências, corpos e linguagens.

A temporada acontece de 9 a 24 de setembro, às quartas e quintas-feiras, às 20h30, na SP Escola Superior de Teatro, na Praça Roosevelt. No palco está o ator mineiro Leon Ramos, sob direção de Pedro Silva e João Mar, que também assinam a dramaturgia.

A remontagem acontece em um momento simbólico: 2026 marca os 30 anos da morte de Caio Fernando Abreu. Escritor que deu forma literária a experiências de desejo, solidão, sexualidade e dissidência, Caio permanece próximo de diferentes gerações LGBTQIAP+. Retomar seu texto, portanto, é também confrontá-lo com o presente.

A Homograma optou por não reproduzir a montagem apresentada em São Paulo em 2022. A proposta foi começar novamente, revendo dramaturgia, estética e linguagem.

“Decidimos fazer tudo de novo, do zero, desde a dramaturgia. Ela foi toda repensada e bastante modificada em relação à primeira versão”, afirmam Pedro Silva e João Mar.

O ponto de partida continua sendo o conto de Caio, mas a nova montagem nasce de uma experiência coletiva e de diferentes geografias. A criação ganhou força durante uma residência artística de quatro meses em Fortaleza, realizada por Leon Ramos.

“Eu tive pouquíssimo contato com a versão anterior e preferi que fosse assim, justamente para ter liberdade de criar, experimentar e encontrar o meu lugar dentro do espetáculo e dentro da obra”, explica o ator.


O que é ser um monstro?    

No conto de Caio Fernando Abreu, a descoberta da sexualidade está ligada à intimidade, à memória e às marcas deixadas por uma sociedade que transforma o desejo em motivo de culpa. Na nova montagem, essa questão é ampliada.

A dramaturgia acompanha um jovem diante da descoberta do próprio desejo e percorre temas como erotismo, abandono, memória, sexualidade e reinvenção. A estrutura é formada por um prólogo e nove quadros e incorpora referências de escritores e dramaturgos como Allen Ginsberg, Clarice Lispector, Eurípides, Hilda Hilst, Jean Genet, Mary Nardini Gang e Sófocles, além de textos escritos pelo próprio Leon Ramos.

O “monstro” deixa de ser apenas uma figura associada àquilo que deve ser escondido. Torna-se uma imagem política: a representação de corpos e desejos que se recusam a caber em padrões estabelecidos.

“Por mais que essa seja uma história relativamente cotidiana, de um adolescente que encontra um primo e tem uma primeira relação, uma descoberta sexual relativamente comum no universo LGBT, isso também tem um posicionamento político e social”, observa Pedro Silva.

A partir dessa perspectiva surge a chamada Teoria Monstro, conceito que atravessa a dramaturgia e aproxima a história de Caio de outras experiências e pensamentos queer.

A pergunta deixa de ser apenas quem é o monstro. Passa a ser: quem decide o que é normal?


O corpo também conta a história

Apesar de ter um único ator em cena, Pequeno Monstro não segue a estrutura tradicional de um monólogo. O corpo de Leon Ramos dialoga com música, luz, projeções, cenário e movimento, fazendo do espetáculo uma experiência que transita entre teatro, dança e performance.

A trilha sonora original, assinada por Maia Caos, mistura referências da música brasileira, da cultura Ballroom e da cultura pop. As projeções expandem o espaço da cena, enquanto a preparação corporal, conduzida pela coreógrafa Prava Alencar, aproxima o trabalho de outras possibilidades de expressão do corpo.

O cenário, criado por Levi Frota e Ícaro Trocoli, tem como elemento central um grande prisma. A estrutura recebe projeções e iluminação e funciona como uma extensão do universo interior do protagonista: quarto de infância, memória, desejo e imaginário se misturam nesse espaço.

O figurino, construído coletivamente, também participa dessa transformação. Referências urbanas, festas, estética dos anos 1980, espaços de desejo e imagens do corpo olímpico aparecem ao lado de feras, pelos, látex e máscaras.

As balaclavas monstruosas funcionam como uma metáfora para as máscaras sociais. São os personagens que muitas vezes precisam ser criados para que corpos dissidentes possam circular por espaços onde a diferença ainda causa estranhamento.

Para Leon Ramos, a transformação do espetáculo aconteceu justamente quando diferentes corpos e experiências passaram a interferir na criação.

“Quando você muda um corpo, você muda o espaço e o ritmo. E quando você traz o cenário, tudo se transforma”, diz o ator.


Entre o herói e a criatura

A nova montagem também modifica imagens presentes no conto original. Os livros de Tarzan, que fazem parte do imaginário do protagonista na narrativa de Caio, são substituídos pela fita VHS de Hércules, deslocando a memória para o universo audiovisual dos anos 1990.

A referência mitológica cria uma oposição entre o herói e o monstro. Hércules encarna força, beleza e virilidade. O monstro, por sua vez, representa aquilo que escapa ao modelo considerado aceitável.

É nesse confronto que o espetáculo coloca o corpo no centro.

Em Pequeno Monstro, o desejo não precisa permanecer escondido atrás de metáforas. Erotismo, fantasia, sexualidade, intimidade e vergonha fazem parte da cena e são utilizados para investigar os limites que a sociedade estabelece para os corpos.

O explícito, nesse contexto, não aparece apenas como provocação. É também uma forma de questionar quem determina o que pode ser visto, falado e desejado.

 

Caio Fernando Abreu, 30 anos depois

A trajetória de Pequeno Monstro começou em 2014, quando Pedro Silva criou uma primeira cena curta inspirada no conto de Caio. Em 2018, a Homograma iniciou uma pesquisa continuada sobre a obra do escritor, processo que resultou na montagem apresentada em São Paulo em 2022.

A nova versão é fruto de uma segunda investigação. Encontros remotos entre artistas deram lugar a ensaios presenciais no Ceará, reunindo profissionais de diferentes regiões e experiências.

João Mar é cearense; Pedro Silva, paulista; Leon Ramos, mineiro. A equipe também reúne artistas cearenses e integrantes de diferentes gerações LGBTQIAP+.

A residência em Fortaleza tornou-se parte essencial dessa construção. “A residência no Ceará foi extremamente fundamental para esse processo ser o que ele é hoje”, afirma João Mar.

A escolha dos territórios não é apenas geográfica. Cada região traz experiências, referências e modos diferentes de pensar o corpo, o desejo e a diferença.

Por isso, ao completar 30 anos da morte de Caio Fernando Abreu, Pequeno Monstro não se limita a olhar para trás. A montagem recupera uma obra que ajudou uma geração a nomear desejos e conflitos para perguntar o que mudou desde então.

E, sobretudo, o que ainda permanece.

Se o mundo continua chamando de monstro aquilo que não entende, talvez a resposta esteja justamente em assumir o nome — e transformá-lo em liberdade.

 

Pequeno Monstro
Célula de Criação Homograma
De 9 a 24 de setembro, às quartas e quintas-feiras, às 20h30
SP Escola Superior de Teatro – Praça Roosevelt, 210, Centro, São Paulo
Classificação: 18 anos
Duração: 50 minutos
Ingressos: R$ 10,00 a R$ 20,00 pelo Sympla.