
O Teatro do Incêndio completa 30 anos de atividades em 2026 e marca a data com o retorno de “Baal – O Mito da Carne”, releitura da primeira montagem da companhia, realizada em 1996. Com texto de Bertolt Brecht e dramaturgia e direção de Marcelo Marcus Fonseca, fundador do grupo, o espetáculo estreia em 29 de agosto, às 20h, e segue em cartaz até 4 de outubro, aos sábados e domingos.
A nova montagem foi produzida sem verba institucional, com apoio da sociedade civil e da bilheteria. Segundo Fonseca, o retorno da peça também representa uma reação à falta de subsídios para a manutenção das atividades do grupo. “Não aceitamos a paralisação, essa situação imposta pela precariedade das políticas públicas para a Cultura em São Paulo”, afirma o diretor artístico.
A primeira versão de “Baal – O Mito da Carne” foi um dos destaques da trajetória inicial do Teatro do Incêndio. A montagem permaneceu dois anos em cartaz, com temporadas no Teatro Oficina e apresentações em dez unidades do Sesc São Paulo, incluindo espaços do interior e da capital.
Inspirada no personagem Baal, associado ao deus fenício da fertilidade e da fecundação, a obra de Brecht apresenta um homem que rejeita as convenções sociais e se entrega aos próprios desejos. Na releitura do Teatro do Incêndio, a narrativa acompanha a relação entre Baal, interpretado por Fonseca, e Ekart, vivido por Daniel Ortega, em uma história marcada por desejo, poesia e destruição, com referências ao relacionamento entre os poetas Arthur Rimbaud e Paul Verlaine.
A dupla estabelece ainda uma relação com Sophie, interpretada por Stella Rocha, formando um triângulo que amplia a discussão sobre empatia e relações humanas. O espetáculo coloca em cena personagens que desafiam definições rígidas de gênero e questionam padrões sociais.
“Baal e Ekart não se encaixam em nenhuma definição de gênero e para eles pouco importa. Isso quer dizer que não é possível rotulá-los, defini-los”, afirma Fonseca.
A montagem também aborda misoginia, falsa moralidade, imposição religiosa, castração sexual e a transformação do dinheiro em valor superior à vida. O texto de Brecht, escrito originalmente em sua juventude e posteriormente refeito pelo autor em cinco versões, é trabalhado pelo Teatro do Incêndio a partir de uma dramaturgia que reúne elementos das diferentes versões.
Linguagens de vanguarda
Conhecido por combinar diferentes linguagens cênicas, o Teatro do Incêndio incorpora à montagem referências do surrealismo, expressionismo e realismo. Em cena, 12 artistas trabalham com música ao vivo para traduzir o humor cínico e niilista de Brecht em diálogo com questões contemporâneas.
A encenação alterna momentos de cabaré e cenas grotescas, explorando o humor diante de situações marcadas pelo conflito e pelo horror. A proposta é estabelecer uma leitura contemporânea da obra sem abandonar sua dimensão crítica.
A temporada também terá o “Esquenta Baal”, realizado aos domingos, a partir das 18h. O público que adquirir o ingresso antecipadamente é convidado a chegar antes da sessão e compartilhar uma bebida com o elenco durante a preparação do espetáculo.
Baal - O Mito da Carne, por Zé Celso (programa da estreia, em 1996)
“Baal deus adorado pelos seminatas como a deusa do dia de hoje: Iansã, deusa do furacão. Os profetas judeus que anunciavam o deus Mona, de concepção “elevada”, detestavam este deus que renascia incessantemente sagrando a vida orgânica, as forças elementares do sangue, da sexualidade e da fecundidade. Baal é a tendência de toda civilização que se torna rígida, ao eterno transtorno de tornar a exaltar as forças instintivas incorretas, mas responsáveis pela continuidade da vida.
No início do século foi xamado pelo poeta cantor de 21 anos, vindo com Lulu, do espírito da terra, do ventre das florestas negras para Munich, capital de capitais que fabricam a linha mecânica da civilização industrial do nosso século. Baal morreu só, na lama, olhando as estrelas e fazendo descaso. Brecht renasceu de novo & real na luta contra o capital. Mas, o cogumelo de Baal ficou na bosta fundamental de toda a sua dramaturgia, até na gula de Galileu. Deu vida de carne a todas as criaturas que mesmo no distanciamento estavam sempre como Baal cagando, olhando as estrelas e debochando.
Mas B.B. não queria a solidão. Buscou a cia, a ágora, o todo mundo em companhia de muitos baals, buscando e fracassando na conquista na condição de todos os poderes aos gulosos da vida. Seus personagens, comida e comidos, heróis comi-trágicos das altas curvas de subida e descida do capital redentora do Deus único inatingível. Bertolt Brecht não matou Baal, o que morreu olhando as estrelas, ficou no ventre de B.B. e como um guia, para que não se perdesse o seu poeta, e a carne viva de suas entidades. Até o comunismo de BB. tinha graça orgástica de Baal, a do primeiro fruto do pecado, que é de onde vem toda a árvore da vida.
Hoje, em São Pã, fim de século e milênio, Marcelo, o Fonseca xama Baal. No elevado mundo dos juros altos, das sublimações messiânicas, das florestas de arrasadas, em que até atores viram censores das elevações consensuais, compassivas dos que estão editando o globo politicamente correto, monoteísta, seco, asséptico.
Dos oasys respiração da terra, num teatro, esse Baal retorna no Brasil como o cogumelo, como muda, plantação de outra floresta e desta vez não vai morrer de solidão, nem vai ter que se esconder nos poucos vícios de seus personagens. Vai ter o luxo de todos.
Este Exu que fez nascer, Brecht, como poeta pro mundo, é invocado hoje, no domínio total da economia, da buro e tecnocratia das altas esferas que em nome do Deus único, seu Jeová $real, jogam a multidão cortada na lama. Mas da lama vem o espírito da terra, do seu inferno renascem seus exus, Baal, Dionizios, Lulus, suas fomes e suas comidas. Há um renascimento, mais que político, social, religioso, de classe ou econômico, há um renascimento vital, erótico, das forças bárbaras, guerreiras, humanas que vão montar sobre estes cavalos da tecnologia de ponta e tomarem o phoder.
No eterno transtorno das forças do espírito da terra estão de volta anunciando a humanidade ligada a sua bestialidade à sua origem vegetal, lembrando que não tem somente 2000 anos e que não nasceu para amar um só Jesus. Jesus tomou cogumelo com os Tahahumaras como conta Artaud que vem revindo com seu centenário.
Jesus é um exu como Baal que não mais vai ser crucificado, mas explodido dos quatro cantos da cruz para ser comido por toda a humanidade na lama que ressuscita neo arcaica e tecnizada, nos primeiros sinais de suas primeiras plantinhas replantadas, nos canteiros quase invisíveis dos teatros. Seus heróis renegados pelas religiões cifilizadoras chegam. Rito do Deus humano ao vivo do poeta traz Baal.
Que seja bem comido por Marcelo Fonseca para se dar de comer em banquete como um grande acontecimento social desta obra primeira, desta primeira comunhão de Bertolt Brecht, que, mesmo que morra Baal renasça com Bertolt Brecht, Marcelo Fonseca e nós todos.
(José Celso Martinez Corrêa | Paraíso, 4 de Dezembro de 1995)
Baal – O Mito da Carne
Teatro do Incêndio
Rua Treze de Maio, 48, Bela Vista/Bixiga, São Paulo
Telefone: (11) 97592-4743
Instagram: @teatrodoincendiooficial
Estacionamento conveniado com desconto na Rua Treze de Maio
Estreia: 29 de agosto, sábado, às 20h
Temporada: até 4 de outubro, aos sábados e domingos, às 20h
Duração: 105 minutos
Classificação: 18 anos
Gênero: drama musical
Ingressos: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia-entrada).
Bilheteria: uma hora antes das sessões.
Esquenta Baal: aos domingos, exclusivo para quem adquirir ingressos antecipadamente.