
A música armorial ganhou um novo registro dedicado à preservação de sua história, seus caminhos estéticos e suas diferentes regionalidades. O jornalista, pesquisador e crítico musical Carlos Eduardo Amaral lançou, neste sábado (15), na Academia Pernambucana de Letras (APL), no Recife, o livro “À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre a música armorial”.
A obra foi apresentada ao público em cerimônia realizada às 15h, com entrada gratuita. Uma tiragem de 200 exemplares foi destinada ao público mediante reserva pelo perfil @musicaarmorial, no Instagram. O livro foi produzido com incentivo do Funcultura, por meio da Fundarpe, da Secretaria de Cultura e do Governo de Pernambuco.
O ensaio propõe uma análise estética e crítica da música armorial a partir do repertório construído pela Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e pelo Quinteto Armorial, grupos que tiveram papel central na consolidação musical do Movimento Armorial durante a década de 1970.
A pesquisa conduzida por Carlos Eduardo Amaral percorre diferentes momentos da formação do pensamento armorial. O estudo parte de referências que antecederam o movimento, como o “Manifesto Regionalista de 1926”, de Gilberto Freyre, e o “Ensaio sobre a música brasileira”, publicado por Mário de Andrade em 1928.
A obra também aborda a influência decisiva do compositor César Guerra-Peixe, que passou a desenvolver novas concepções musicais após viver no Recife entre 1949 e 1952. A trajetória do músico é apresentada como parte importante do processo de construção de uma linguagem relacionada às tradições musicais brasileiras.
Para Amaral, embora o Movimento Armorial seja frequentemente associado ao imaginário criado a partir das ideias de Ariano Suassuna, sua dimensão artística ultrapassou a atuação do escritor paraibano e reuniu diferentes criadores.
“Embora muito associado à construção de imaginário despertada pelas idealizações de Ariano Suassuna, o Movimento Armorial agregou ou influenciou não poucos artistas, boa parte deles ainda em atividade”, comenta o autor.
No campo musical, o pesquisador destaca que o repertório desenvolvido pela Orquestra Armorial e pelo Quinteto Armorial continua sendo executado, especialmente em Pernambuco. Apesar disso, segundo ele, ainda são poucas as publicações dedicadas especificamente à música armorial.
“É notável como quase não existem livros que abordem a música armorial”, observa Amaral. O pesquisador explica que, diante dessa lacuna, chegou a produzir também um e-book introdutório sobre o tema, posteriormente traduzido para o inglês e o espanhol.
Um dos pontos abordados no livro são as diferenças entre as duas principais formações musicais associadas ao movimento na década de 1970.
A Orquestra Armorial estabeleceu uma determinada concepção sonora, marcada por uma sonoridade de características barrocas e por uma formação instrumental mais ampla. Segundo a pesquisa, questões como a exclusão de determinados instrumentos populares e as escolhas estéticas do grupo contribuíram para divergências entre Ariano Suassuna e integrantes da formação.
O processo resultou na criação do Quinteto Armorial, reunindo músicos mais jovens e ampliando as possibilidades sonoras buscadas por Suassuna. A nova formação incorporou referências relacionadas à música renascentista e se tornou, ao lado da Orquestra, um dos principais paradigmas para a produção musical armorial.
O livro também mostra que outras experiências foram desenvolvidas com a intenção de criar uma linguagem identificada com o movimento. Compositores e grupos posteriores passaram a se aproximar ou se afastar desses modelos, produzindo diferentes interpretações sobre o que poderia ser considerado armorial.
A investigação não se limita aos anos de formação do Movimento Armorial. A publicação acompanha transformações ocorridas na produção musical até o período contemporâneo e discute especialmente as mudanças conceituais observadas a partir da virada do século.
Nesse contexto, o autor questiona se determinados parâmetros da música armorial foram efetivamente ampliados ao longo do tempo ou se passaram a ser utilizados dentro de outras matrizes musicais.
A obra apresenta ainda uma relação de trabalhos e compositores, funcionando também como um inventário catalográfico de produções relacionadas à estética armorial — levantamento que, segundo o autor, ainda não havia sido realizado de maneira semelhante.
Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Carlos Eduardo Amaral atua como jornalista, pesquisador, crítico musical, escritor, compositor e arranjador. Ele colabora com a revista Continente desde 2006 e atualmente coordena o projeto Música na APL, na Academia Pernambucana de Letras.
Em 2022, recebeu a Medalha Biblioteca Nacional — Ordem do Mérito do Livro, em reconhecimento às contribuições para a cultura brasileira.
Como pesquisador, teve trabalhos premiados pela Funarte, pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Joaquim Nabuco. Na música, possui mais de 30 obras escritas para orquestra sinfônica e formações de câmara.
Na literatura, publicou pela Cepe Editora biografias de nomes como Clóvis Pereira, Maestro Formiga, Maestro Duda, Getúlio Cavalcanti e Jota Michiles. Também lançou recentemente “SaGrama: um álbum por escrito”, publicação comemorativa dos 30 anos de trajetória do grupo.
Com o novo ensaio, Carlos Eduardo Amaral amplia a bibliografia dedicada à música armorial e reúne elementos históricos, musicais e estéticos para discutir como essa produção se desenvolveu desde suas origens até as manifestações contemporâneas.
Livro: “À guisa de arcadas de rabeca e ponteados de viola: ensaio sobre música armorial”
Autor: Carlos Eduardo Amaral
Lançamento: sábado, 15 de agosto de 2026
Horário: 15h
Local: Academia Pernambucana de Letras – Av. Rui Barbosa, 1596 – Graças, Recife
Entrada: gratuita, sujeita à lotação
Distribuição: exemplares mediante reserva pelo perfil @musicaarmorial, no Instagram, conforme disponibilidade
Incentivo: Funcultura / Fundarpe / Secretaria de Cultura / Governo de Pernambuco
Audiobook: disponível no YouTube.