
Numa região onde cerca de 70% do público atendido é negro, as atividades de cidadania ultrapassam o debate teórico e convertem-se em oportunidades reais de autonomia financeira e de bem-estar para as famílas que frequentam o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Canguru.
Durante a recente programação do “Julho das Pretas”, a unidade organizou oficinas práticas que uniram lideranças comunitárias e moradores. A arte das tranças, um símbolo ancestral de identidade e comunicação nas culturas africanas, foi apresentada como uma ferramenta direta de empreendedorismo. Em simultâneo, as rodas de capoeira cumpriram o papel de instrumento pedagógico, desportivo e de preservação histórica.
Para a coordenadora do Cras Canguru, Marcia da Silva, o resgate estético liga-se diretamente à estruturação social e econômica das participantes. “A proposta é conversar com os usuários do Cras sobre a importância da luta antirracista e feminista para o empoderamento das mulheres negras, além de oportunizar um espaço onde as participantes possam obter mais informações sobre a cultura afro, resgatando a valorização da estética da mulher negra”, explica.

Voz e representatividade
As discussões organizadas na unidade abordaram também as atualizações da Lei n.º 7.716, que tipifica os crimes de racismo, e a urgência de cuidar da saúde mental. A educadora social e servidora do centro, Enilza Aparecida dos Santos, salienta a necessidade de manter o tema vivo ao longo dos doze meses do ano.
“O Julho das Pretas a gente tem que entender que não é só no mês. Temos que falar a respeito disso o ano todo, porque ainda temos que quebrar esse tabu, já que o racismo é constante. As mulheres negras ainda enfrentam muitas barreiras, inclusive salariais. Nós precisamos mostrar e conscientizar a população de que nós também temos voz na sociedade e nas periferias, e somos parte importante dessa história”, afirma.
O impacto de longo prazo destas ações reflete-se na vida de profissionais da comunidade, que encontram no centro de assistência um espaço de escuta e aprendizagem.
“Foi a primeira vez que estive nesse evento e realmente pude ver o quão são importantes os debates e tudo o que foi apresentado. Acho de suma importância ter esse tipo de evento no Cras, porque as vozes dessas mulheres puderam ser ouvidas. São mulheres que tinham muito a ensinar e eu pude aprender muito com elas”, relata a trancista Mariane da Costa Duarte.
Serviço ao Cidadão
O Cras Canguru desenvolve atividades contínuas de convivência e fortalecimento de vínculos para a comunidade. Para participar nas oficinas, palestras e ações desportivas, os moradores podem procurar a unidade de assistência social da região para realizar a inscrição nos programas permanentes.
#PraTodosVerem: A imagem em destaque mostra alunas no curso de tranças