
Sentir-se um “zero bem redondinho” não parece, à primeira vista, uma boa maneira de começar uma história sobre autoestima. Em Cara de Nada, porém, é justamente dessa sensação que nasce a descoberta do protagonista sobre quem ele é e o lugar que pode ocupar no mundo.
O livro marca a estreia do escritor, historiador e professor universitário Ademir Luiz na literatura infantil. Publicada pela Editora Mondru e ilustrada por Tiago Duarte, a obra acompanha um menino que desde o nascimento acredita ter “cara de nada”. Comparações, situações bem-humoradas e metáforas visuais vão mudando essa percepção ao longo da narrativa.
Uma das descobertas passa pela matemática. O personagem percebe que o zero pode parecer insignificante em determinadas posições, mas também é capaz de transformar um simples um em mil. A ideia vira metáfora para falar de potencial, individualidade e pertencimento sem abandonar o universo lúdico da história.
A vontade de escrever para crianças surgiu da experiência de Ademir como gestor cultural e crítico literário. Ao entrar em contato com diferentes publicações infantis e infantojuvenis, ele passou a questionar obras que, em sua avaliação, simplificavam demais a relação com o leitor.
“Um livro infantil precisa ser tão caprichado quanto um livro para adultos. Até mais. Estamos falando de leitores em formação”, afirma.
Entre suas referências estão A Parte que Falta e A Parte que Falta Encontra o Grande O, de Shel Silverstein, obras que trabalham temas amplos por meio de narrativas aparentemente simples. Em Cara de Nada, Ademir também buscou essa possibilidade de leitura em camadas.
Texto e ilustração foram pensados juntos desde o início. O autor produziu os primeiros esboços visuais e depois convidou Tiago Duarte para desenvolver os desenhos definitivos.
A história ainda abre espaço para emoções que nem sempre aparecem com naturalidade em personagens masculinos infantis. O menino chora, demonstra fragilidade e transforma suas próprias lágrimas em imagem poética: em determinado momento, elas formam um mar no qual ele pode “nadar com sua cara de nada”.
Referências à cultura pop, à ciência, às artes, aos videogames e aos esportes também entram na narrativa. Para Ademir, esses universos não competem necessariamente com os livros e podem ajudar a aproximar a literatura das crianças de hoje.
“Minha intenção é fazer com que as crianças leiam o livro, entendam sua narrativa, pesquem muitas de suas piadas, mas, ao mesmo tempo, percebam que ele possui outras camadas”, explica.
Cara de Nada é dedicado aos sobrinhos Netto e João Paulo, que inspiraram o projeto. Como extensão do lançamento, o autor planeja produzir vídeos para as plataformas digitais e cogita até retomar o palhaço Mirim, personagem que interpretava quando trabalhava com animação de festas infantis.
Doutor em História, com especialização no período medieval, Ademir Luiz realizou pós-doutorado em Poéticas Visuais e Processos de Criação. Foi bolsista pesquisador do Instituto Camões, de Portugal, e indicado ao Prêmio Capes de Teses.
Professor universitário e presidente da União Brasileira de Escritores de Goiás (UBE-GO), também é editor da Revista Nós: Cultura, Estética e Linguagens e atua como romancista, contista, quadrinista e ensaísta.
Entre seus livros estão Apologia ao fim, vencedor do Prêmio Cora Coralina; Fogo de Junho, vencedor do Prêmio Hugo de Carvalho Ramos; e O Wikiota. Também escreveu o roteiro da graphic novel Conclave, ilustrada por Rafael Campos Rocha, e criou a chamada Teoria do Chaves, publicada na Revista Bula.