
A ancestralidade afro-brasileira e a história da música popular brasileira estão no centro de Gente Nova da Antiga, espetáculo que reúne os cantores Áurea Martins, André Gabeh e Vidal Assis em uma homenagem a três nomes fundamentais da cultura nacional: Clementina de Jesus, Pixinguinha e João da Baiana. Selecionada pelo edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, a turnê percorre diferentes cidades do estado do Rio de Janeiro com um repertório inspirado no histórico disco Gente da Antiga, lançado em 1968.
A programação teve início no último fim de semana de agosto, em Valença, e passou também por Niterói. Entre as próximas apresentações estão o Sesc Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, no dia 10 de outubro; o Sesc Nova Iguaçu, em 13 de novembro; e o Espaço Cultural Arte Sesc, no Flamengo, em 27 de novembro.
Com arranjos inéditos, o espetáculo recupera a beleza, a força e a atualidade de composições ligadas às matrizes africanas da música brasileira. A proposta é celebrar artistas que, por meio de suas trajetórias, contribuíram para preservar e transmitir essa herança cultural às novas gerações.
Gravado em 1968, o álbum original reuniu Clementina de Jesus, então com 65 anos, Pixinguinha, com 70, e João da Baiana, aos 82. Mesmo em diferentes momentos de suas vidas, os três mantinham a vitalidade criativa e a capacidade de dialogar com a juventude de seu tempo, fazendo da música um elo entre gerações.
Essa conexão ganha novos contornos no encontro entre Áurea Martins, hoje com 86 anos e uma trajetória de mais de seis décadas, e os cantores da nova geração André Gabeh e Vidal Assis. O resultado é um espetáculo que combina reverência, alegria e emoção para reafirmar a permanência dessas referências na cultura brasileira.
Repertório une tradição e contemporaneidade
O roteiro musical inclui canções presentes no disco Gente da Antiga, como “Yaô”, de Pixinguinha e Gastão Viana; “Roxá”, de domínio público; “Mironga de Moça Branca”, também de domínio público; “Batuque na Cozinha”, de João da Baiana; “Que Querê”, de João da Baiana, Donga e Pixinguinha; e “Fala Baixinho”, de Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho.
A apresentação também incorpora músicas que ampliam o diálogo entre ancestralidade e contemporaneidade. Entre elas estão “São Pixinguinha”, de Emicida; “Coisa da Antiga”, de Nei Lopes e Wilson Moreira; “Moro na Roça”, de José Passos e Arnaldo Passos; e “Ilú Ayê”, de Norival Reis e Cabana.
A seleção evidencia a continuidade de tradições musicais afro-brasileiras em diferentes épocas e linguagens, aproximando o legado dos homenageados de expressões mais recentes da música popular.
Encontro de gerações no palco
Com direção de Renata Grecco, o espetáculo conta com três instrumentistas de destaque: Marcos Suzano, na percussão e no pandeiro; Mário Séve, nos saxofones e nas flautas; e Lui Coimbra, no violoncelo, no violão e na rabeca. Coimbra também assina a direção musical e os arranjos.
A cantora Áurea Martins ocupa posição central nesse encontro. Reconhecida pela interpretação marcada pela expressividade e pela ligação com a tradição musical negra, ela construiu uma carreira de mais de 60 anos, lançou nove discos solo e recebeu, em 2022, reconhecimento pelo álbum Senhora das Folhas, indicado ao Grammy Latino. Sua trajetória também foi retratada na biografia A invisibilidade visível, publicada em 2017.
André Gabeh, por sua vez, combina a carreira musical com a literatura. Autor de três livros, lançou os álbuns André Gabeh (2002) e O Jardim de André (2017), além de participar de mais de 20 discos como cantor convidado. Seu timbre e sua extensão vocal integram a proposta de renovar a escuta de um repertório ligado às raízes da música brasileira.
Já Vidal Assis é cantor e compositor da nova geração da MPB. Em seu álbum Retratos, desenvolve parcerias com o poeta Hermínio Bello de Carvalho e transita por gêneros como samba, baião, afoxé, capoeira e toada.
A herança de Clementina, Pixinguinha e João da Baiana
A homenagem resgata a contribuição de três artistas que ajudaram a estabelecer pontes entre as tradições afro-brasileiras e a música popular urbana.
Clementina de Jesus tornou-se uma referência pela força de sua interpretação e pela preservação de cantos e sonoridades de matriz africana. Sua presença na música brasileira representou a aproximação entre tradições ancestrais e a modernidade cultural de seu tempo.
João da Baiana, compositor e pandeirista, foi uma figura importante na consolidação do samba urbano. Neto de pessoas escravizadas, cresceu em um ambiente ligado às tradições das chamadas Tias Baianas, entre elas sua mãe, que conviveu com Tia Ciata e Tia Amélia. Foi nesse universo de encontros musicais que João da Baiana iniciou sua trajetória, tornando-se também uma referência no uso do pandeiro e na gravação de pontos de macumba.
Pixinguinha, por sua vez, foi instrumentista, compositor, arranjador, orquestrador e maestro. Ao combinar elementos de valsas, polcas e modinhas com sonoridades afro-brasileiras, contribuiu decisivamente para a consolidação do choro e para a formação de uma linguagem instrumental característica da música nacional. Autor de clássicos como “Carinhoso”, deixou uma obra que permanece presente no repertório de diferentes gerações.
A dimensão afetiva desse legado já estava expressa nas palavras de Hermínio Bello de Carvalho, produtor do álbum original. Ao comentar a participação dos três artistas, ele destacou a inventividade de Pixinguinha, a emoção de Clementina diante daquela companhia e a personalidade marcante de João da Baiana.
É esse espírito que orienta Gente Nova da Antiga: um encontro entre gerações que celebra a ousadia, a resistência, a excelência e a alegria de artistas cujas obras continuam alimentando a música brasileira.
Gente Nova da Antiga — Áurea Martins, André Gabeh e Vidal Assis
10 de outubro (sábado) — Sesc Retiro dos Artistas
Rua Retiro dos Artistas, 571, Pechincha, Jacarepaguá, Rio de Janeiro (RJ).
Telefone: (21) 2148-3066.
13 de novembro (sexta-feira) — Sesc Nova Iguaçu
Rua Dom Adriano Hipólito, 10, Moquetá, Nova Iguaçu (RJ)
Telefone: (21) 4020-2101.
27 de novembro (sábado) — Espaço Cultural Arte Sesc
Rua Marquês de Abrantes, 99, Flamengo, Rio de Janeiro (RJ)
Telefone: (21) 4020-2101.
Atração selecionada pelo edital de Cultura Sesc RJ Pulsar.