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Urna eletrônica: como o Brasil mudou o modo de votar

Da primeira ideia de uma máquina de votar ao equipamento que estreou em 1996, a história da urna eletrônica brasileira envolve pioneirismo, tecnologia e um projeto desenvolvido por diferentes instituições

André Rossanez
Por: André Rossanez
04/10/2026 às 14h17 Atualizada em 04/10/2026 às 14h29
Urna eletrônica: como o Brasil mudou o modo de votar
Foto: Divulgação

A urna eletrônica faz parte da rotina das eleições brasileiras há três décadas, mas sua história começou muito antes de o primeiro equipamento chegar às seções eleitorais. A ideia de utilizar máquinas para registrar votos já aparecia no Código Eleitoral de 1932, que previa a possibilidade do uso de “máquinas de votar”. Na prática, porém, o Brasil ainda levaria muitos anos para transformar essa possibilidade em realidade.

Um dos primeiros brasileiros a tentar criar uma máquina de votação foi Sócrates Ricardo Puntel, que apresentou, em 1958, a chamada Máquina de Puntel. O equipamento utilizava teclas e mecanismos para indicar os cargos que seriam preenchidos. Apesar de representar uma tentativa pioneira, a invenção não chegou a ser utilizada oficialmente nas eleições.

A transformação efetiva começou décadas depois. Entre 1985 e 1986, a Justiça Eleitoral implantou um cadastro único e automatizado de eleitores, reunindo aproximadamente 70 milhões de registros. Esse processo foi fundamental para a informatização das eleições e criou uma infraestrutura tecnológica que posteriormente permitiria avançar também para a votação eletrônica.

Em 1989, houve outro momento histórico: eleitores de Brusque, em Santa Catarina, participaram de uma experiência em que utilizaram um computador para votar no segundo turno da eleição presidencial. Ainda não era a urna eletrônica como conhecemos atualmente, mas o teste mostrou que a tecnologia poderia fazer parte do processo eleitoral brasileiro.

Em 1994, a Justiça Eleitoral deu mais um passo importante ao realizar o processamento eletrônico dos resultados das eleições gerais. A apuração dos votos ainda era manual, mas os resultados passaram a ser processados e totalizados por computadores. No ano seguinte, o projeto da urna eletrônica começou efetivamente a tomar forma.

Quem inventou a urna eletrônica?

A resposta mais correta é: a urna eletrônica brasileira foi desenvolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por meio de um trabalho coletivo de especialistas, e não por uma única pessoa ou empresa.

Em 1995, o TSE formou grupos técnicos para desenvolver o equipamento. Participaram profissionais da Justiça Eleitoral, das Forças Armadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), do Ministério da Ciência e Tecnologia, do Ministério das Comunicações e de outras instituições. Uma dessas equipes ficou conhecida como “os ninjas”, apelido associado à presença de três integrantes de ascendência oriental.

O primeiro nome do projeto foi Coletor Eletrônico de Votos (CEV). A proposta era criar um equipamento compacto, simples de transportar e utilizar, capaz de registrar os votos e reduzir a intervenção humana nas etapas de apuração e totalização.

A estreia aconteceu em 1996

A primeira geração, conhecida como UE96, foi utilizada nas Eleições Municipais de 1996. Naquele ano, aproximadamente 32 milhões de brasileiros, cerca de um terço do eleitorado, votaram por meio eletrônico em 57 municípios. Foram utilizadas cerca de 70 mil urnas eletrônicas.

O equipamento foi empregado em todas as capitais dos estados, com exceção de Brasília, no Distrito Federal, além de municípios com mais de 200 mil eleitores. O projeto havia sido concluído em apenas cinco meses para aquela eleição e, posteriormente, passou por sucessivas evoluções.

Como era a primeira urna?

A UE96 tinha características bastante diferentes das urnas atuais. O modelo utilizava um processador Intel 386SX de 40 MHz, 2 MB de memória e dois disquetes de 1,44 MB para armazenamento. O teclado numérico foi inspirado no formato de um telefone, uma escolha pensada para facilitar a utilização por diferentes perfis de eleitores.

Outro detalhe curioso é que o primeiro modelo possuía impressora, algo que desapareceu das gerações posteriores. Com o passar dos anos, novas tecnologias foram incorporadas, incluindo recursos de acessibilidade, armazenamento em memória flash, mecanismos de segurança, Registro Digital do Voto e, posteriormente, identificação biométrica.

Quem fabrica a urna?

Também existe uma curiosidade importante: a empresa que fabrica a urna não é quem cria o projeto eleitoral. O equipamento é especificado pelo TSE, que estabelece os requisitos técnicos e de segurança. A fabricação é realizada por empresas escolhidas por meio de licitação e acompanhada pela Justiça Eleitoral.

Ao longo de três décadas, quatro fabricantes produziram os equipamentos. A Unisys Brasil foi responsável pela primeira urna utilizada em 1996; a Procomp produziu modelos posteriores; a Diebold/Diebold Procomp fabricou diversas gerações; e a Positivo Tecnologia passou a produzir modelos mais recentes.

A implantação também foi gradual. Depois da experiência de 1996, a participação das urnas eletrônicas aumentou nas eleições seguintes até que, nas eleições municipais de 2000, 100% do eleitorado brasileiro passou a votar eletronicamente.

Assim, a história da urna eletrônica brasileira não pode ser atribuída a um único inventor. Ela é resultado de décadas de tentativas, experiências tecnológicas e, principalmente, de um projeto coordenado pela Justiça Eleitoral que ganhou forma definitiva em 1995 e chegou aos eleitores no ano seguinte. Da Máquina de Puntel, em 1958, ao equipamento nacional utilizado atualmente, foram mais de 40 anos de evolução até o voto eletrônico se tornar parte da identidade das eleições brasileiras.