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Mulheres concentram decisões familiares também nos momentos de luto

Estudo sobre divisão dos cuidados reforça debate no Outubro Rosa e destaca a sobrecarga feminina diante da perda de familiares.

Jacson Gonçalves
Por: Jacson Gonçalves
30/09/2026 às 14h03
Mulheres concentram decisões familiares também nos momentos de luto
Foto divulgação

Mulheres concentram decisões familiares também nos momentos de luto

Estudo sobre divisão dos cuidados reforça debate no Outubro Rosa e destaca a sobrecarga feminina diante da perda de familiares.

O Outubro Rosa, tradicionalmente voltado à conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama, também abre espaço para reflexões sobre a sobrecarga enfrentada por muitas mulheres dentro das famílias. Além dos cuidados com a própria saúde e das responsabilidades cotidianas, esposas, filhas e irmãs costumam assumir a organização das decisões e dos procedimentos burocráticos após a morte de um familiar, acumulando tarefas práticas e emocionais justamente em um momento de fragilidade.

Embora essa realidade nem sempre seja percebida, pesquisas mostram que as mulheres continuam concentrando grande parte das atividades de cuidado. Dados da pesquisa Sem Parar 2025, realizada pela Gênero e Número em parceria com a Sempreviva Organização Feminista, apontam que 43% das entrevistadas eram as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado, enquanto 48% cuidavam de crianças, idosos ou outras pessoas da família sem receber remuneração. O levantamento também revelou que 60% relataram cansaço e dores físicas.

Sobrecarga também aparece nos momentos de despedida

Segundo Eduardo Fernandes, gestor de projetos do Campo Santo Familiar, essa divisão de responsabilidades também é percebida durante o atendimento às famílias enlutadas. De acordo com ele, é comum que uma mulher concentre as decisões relacionadas à despedida de um familiar.

“É muito comum que uma mulher seja a pessoa de referência naquele momento. Mesmo profundamente abalada, ela procura entender os procedimentos, confere documentos, conversa com os familiares e participa das principais decisões. Muitas vezes, é quem tenta organizar tudo para que os demais possam se despedir”, afirma.

Além do impacto emocional provocado pela perda, quem assume essa função precisa lidar com uma série de providências administrativas. Entre elas estão a emissão de documentos, autorizações legais, definição da cerimônia, escolha entre sepultamento ou cremação e encaminhamentos posteriores relacionados a benefícios, seguros, contas e processos de inventário.

Planejamento pode reduzir a pressão sobre as famílias

Para Samara Bastos, coordenadora de Marketing do Campo Santo Familiar, o acolhimento oferecido durante esse período também deve considerar quem concentra as responsabilidades práticas.

“A mulher que está à frente das decisões nem sempre é a que está emocionalmente mais preparada. Muitas vezes, ela apenas entende que precisa assumir esse papel. Por isso, as informações devem ser claras e transmitidas com sensibilidade, respeitando o tempo da família e evitando uma sobrecarga ainda maior”, destaca.

Segundo ela, algumas medidas adotadas antes de uma situação de perda podem facilitar esse processo. Conversas sobre preferências, organização de documentos e divisão prévia de responsabilidades ajudam a reduzir o peso das decisões que precisam ser tomadas em pouco tempo.

Compartilhar responsabilidades também é uma forma de cuidado

Além do planejamento, especialistas destacam que familiares e amigos podem contribuir assumindo tarefas práticas durante o período de luto. O apoio vai além das manifestações de solidariedade e pode incluir organização de documentos, resolução de pendências e acompanhamento de procedimentos necessários.

Para Eduardo Fernandes, dividir essas responsabilidades representa uma forma concreta de acolhimento.

“Acolher não é apenas dizer palavras de conforto. É perguntar o que precisa ser resolvido, acompanhar uma providência, organizar documentos ou assumir uma tarefa. Compartilhar essas responsabilidades é uma forma concreta de cuidado”, conclui.

Foto: Divulgação.