
Depois de 13 anos transformando uma janela diante do Minhocão em palco para crianças, famílias e moradores de São Paulo, o Grupo Esparrama se despede do Teatro de Janela. A última apresentação de Esparrama pela Janela será realizada em 12 de outubro, às 16h, no Dia das Crianças, com entrada gratuita.
Criado em 2013, o projeto tornou a relação entre teatro, infância e cidade o centro de uma pesquisa artística que levou palhaços, princesas, monstros, seresteiros e outras figuras ao encontro do público em pleno espaço urbano. Ao longo desse período, os três espetáculos que integraram a chamada Trilogia da Janela — Esparrama pela Janela, Minhoca na Cabeça e Navegar — somaram 101 apresentações e alcançaram 25.585 espectadores.
A despedida ocorre em razão de uma transformação na própria paisagem que sempre esteve no centro do trabalho. Uma árvore plantada em frente ao apartamento cresceu ao longo dos anos e passou a interferir diretamente na realização do espetáculo. Para o grupo, o fato acabou ganhando um significado simbólico: assim como a árvore, a cidade também cresceu e se transformou.
“Em vez de disputar o espaço com a árvore, escolhemos respeitar esse processo de transformação. Torcemos para que ela tenha muita saúde e tempo para crescer bastante. Quem sabe, um dia, quando suas copas abrirem espaço novamente, a janela possa voltar a ser palco”, afirma Iarlei Rangel, diretor do Grupo Esparrama.
Quando a janela virou palco
O Teatro de Janela surgiu quase por acaso. Durante os ensaios de 2POR4, integrantes do grupo apareceram na janela do apartamento onde trabalhavam, diante do Minhocão. A reação das pessoas que passavam pelo elevado levou os artistas a perceberem que aquele espaço poderia se transformar em palco.
Após oito meses de pesquisa, nasceu Esparrama pela Janela, espetáculo que invertia a lógica tradicional do teatro: os artistas permaneciam dentro de uma casa, o público ficava na rua e o Minhocão assumia simultaneamente os papéis de cenário, plateia e personagem.
A montagem acompanha um morador incomodado com o barulho da cidade que decide transformar os sons que chegam pela janela em música. A partir daí, surge um universo fantástico, com uma menina-princesa que vive em um prédio-castelo, um palhaço, um seresteiro gigante, um esportista dançarino, fofoqueiras de janela e uma família de monstros.
Para Iarlei Rangel, a experiência também fez com que a cidade passasse a ocupar um lugar central na pesquisa do grupo. “Ela se impôs enquanto tema e cobrou de nós artistas a coragem de responder cenicamente a essas provocações. Com isso, vieram os espetáculos seguintes, completando a trilogia”, afirma.
A pesquisa avançou para temas ligados às relações entre infância, arquitetura e espaço urbano, abordando também os medos, desejos e sonhos das crianças em relação à cidade.
Teatro e transformação urbana
Ao longo dos anos, o Teatro de Janela acompanhou as mudanças na maneira como o Minhocão é percebido e ocupado pela população. Em 2021, a iniciativa recebeu a Placa do Inventário Memória Paulistana, concedida pelo Departamento do Patrimônio Histórico da cidade de São Paulo.
O trabalho também recebeu reconhecimento em premiações como o Prêmio FEMSA de Teatro Infantil e Jovem e o Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro, além de indicações e seleções em iniciativas como APCA e Prêmio São Paulo.
A apresentação de despedida pretende reunir crianças, famílias, moradores da região e antigos espectadores para além de uma última sessão. O grupo quer transformar o encontro em um espaço de memória, convidando o público a compartilhar histórias e experiências relacionadas ao Teatro de Janela, ao Minhocão e à trajetória do Esparrama.
A proposta é construir uma espécie de álbum de memórias a céu aberto, recuperando aquilo que não aparece nas estatísticas: as lembranças, afetos, imagens e histórias que cada espectador levou consigo depois de assistir a um espetáculo pela janela.
Grupo Esparrama
Com 13 anos de atuação, o Grupo Esparrama desenvolve pesquisas e espetáculos relacionados a teatro, infância, educação e cidade. Além do Teatro de Janela, o coletivo criou montagens como 2POR4, FIM? e Detetives do Espavô, esta última em parceria com a Trupe DuNavô.
As produções do grupo receberam mais de 15 prêmios e indicações, incluindo Prêmios APCA em 2021, 2022 e 2024. Em 2024, o Esparrama estreou Acorda!, apresentado também em uma janela do CCBB São Paulo, além de temporadas no CCBB de Belo Horizonte e no Museu da Independência, em São Paulo.
Em 2025, o grupo estreou Cidade Brinquedo, espetáculo com palhaços que propõe brincadeiras e interações com as crianças no espaço público, dando continuidade à pesquisa sobre outras formas de experimentar e ocupar a cidade.
Esparrama pela Janela – A Despedida
Com Grupo Esparrama
12 de outubro, segunda-feira, às 16h
Minhocão (Elevado Presidente João Goulart), entre as alças de acesso do Metrô Santa Cecília e da Rua da Consolação. Haverá sinalização nos pontos de acesso indicando o local da apresentação.
Classificação: Livre
Duração: 40 minutos
Gratuito
Em caso de chuva, o espetáculo não será apresentado.