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Do Outro Lado do Rio aproxima teatro e poesia das infâncias

Espetáculo da Cia. Peixes Voadores mistura narrativa, música ao vivo e imaginação para abordar as relações entre cidade, natureza e diferentes formas de perceber o tempo

Graciela Binaghi
Por: Graciela Binaghi
28/09/2026 às 19h12
Do Outro Lado do Rio aproxima teatro e poesia das infâncias
Do Outro Lado do Rio - Foto de Lucas Fidalgo

Um rio separa dois universos em Do Outro Lado do Rio, espetáculo da Cia. Peixes Voadores que estreia em 10 de outubro, às 15h, na Sala EMS do BTG Pactual Hall, em São Paulo. Com direção de Maria Alencar, dramaturgia e música original de Luane Sato, a montagem propõe às crianças e aos adultos uma experiência poética sobre natureza, tempo, memória e imaginação.

De um lado está a cidade, marcada pela pressa, pelas buzinas e pelos relógios. Do outro, a natureza, onde o tempo parece obedecer a outro ritmo. É entre esses dois mundos que se desenvolve a história de uma onça que sente uma estranha coceira no peito e parte em busca de respostas ao lado da Velha Ventania, personagem guardiã da memória dos tempos antigos. No caminho, elas encontram uma criança cujo coração também está inquieto.

A partir desse encontro, o espetáculo constrói um universo onírico em que os limites entre cidade e floresta, criança e animal, realidade e imaginação se tornam mais flexíveis. A pesquisa da companhia parte de personagens considerados “inúteis” pela lógica da sociedade contemporânea, como crianças, idosos e animais, aproximando diferentes maneiras de experimentar o tempo.

“O espetáculo nos possibilita fazer teatro brincando e essa é a maior delícia quando se está em cena”, afirma Luiza Kehdi, que assina o dramaturgismo e integra o elenco ao lado de Tcho Salgado. Para ela, o rio representa tanto uma fronteira quanto uma possibilidade de encontro entre mundos distintos.

A encenação também rompe com a narrativa linear. Os artistas transitam entre personagens e narradores, enquanto as diferentes temporalidades se misturam. “A peça acontece no presente, mas em um tempo diferente, mais lento, não ligado ao real, e sim ao onírico. Criança, onça e velha têm as suas próprias temporalidades, que vão se misturando”, explica Maria Alencar.

 

Quando a palavra vira brincadeira

A poesia é um dos principais elementos da montagem, que tem como referência a obra de Manoel de Barros (1916-2014), especialmente Didática da Invenção. O espetáculo incorpora a perspectiva infantil presente na obra do poeta, em que palavras, sentidos e objetos podem ser reorganizados pela imaginação.

A proposta é transformar a própria linguagem em matéria de brincadeira. Palavras podem ganhar novos significados e criar possibilidades que escapam à lógica adulta, convidando o público a experimentar outras formas de perceber o mundo.

“Penso a estrutura de Do Outro Lado do Rio como um chão de poema e elejo palavras que levem a sério a imensidão que o ‘ser criança’”, explica Luane Sato. Segundo a dramaturga, a construção do texto nasceu também do contato com as crianças e de uma tentativa de preservar a capacidade de imaginar e reinventar.

 

Música e objetos em diferentes escalas

A atmosfera poética ganha reforço com música executada ao vivo. Instrumentos como pandeiro, bumbo, pífano, charango e viola integram a sonoridade da montagem, enquanto o cenário artesanal, criado por Lucas Lopes, explora diferentes proporções de objetos e espaços.

A brincadeira com as dimensões aparece especialmente na Velha Ventania, criada pelo artista e bonequeiro Paulo Farah. A personagem pode assumir diferentes tamanhos, de pequena como uma brisa a gigante como uma ventania. As casas que representam a cidade também seguem essa lógica, surgindo em escala reduzida diante dos atores e da criança.

Sem exigir participação direta da plateia, a encenação estabelece uma relação de cumplicidade com os espectadores. “É como se, por alguns instantes, o rio pudesse ser atravessado e o público passasse para o outro lado”, resume Maria Alencar.

Formada em 2023 por artistas do curso de Arte-Teatro da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), a Cia. Peixes Voadores desenvolve pesquisas voltadas ao teatro para as infâncias. Do Outro Lado do Rio é sua primeira criação teatral e teve temporada no Palco Praça do iBT (Instituto Brasileiro de Teatro), entre outubro e novembro de 2025.

 

 

Do Outro Lado do Rio
Cia. Peixes Voadores
BTG Pactual Hall – Sala EMS 
Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo - SP
Quando: 10 de outubro a 1º de novembro, sábados e domingos, às 15h
Duração: 60 minutos 
Classificação: livre
Ingressos: R$ 25 a R$ 120, pelo Sympla