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Coletivo Êxodo adapta “Amores Surdos”, de Grace Passô

Espetáculo combina música ao vivo, absurdo e quebra da ficção para abordar conflitos familiares

Graciela Binaghi
Por: Graciela Binaghi
25/09/2026 às 14h18
Coletivo Êxodo adapta “Amores Surdos”, de Grace Passô
Amores Surdos - Foto de Luísa Gastaldi

Uma família confinada em uma casa onde faltam dinheiro, espaço e diálogo é o ponto de partida de “Amores Surdos: O Balde de Lama e o (Ch)amado Silêncio”, adaptação do texto de Grace Passô escrito em 2006. A montagem do Coletivo Êxodo, dirigida e adaptada por Luize, com orientação de Pedro Haddad, coloca em cena conflitos familiares, vizinhos que observam e interferem na rotina dos protagonistas, música ao vivo e até um hipopótamo.

O espetáculo será apresentado no Teatro Reynuncio Lima, do Instituto de Artes da UNESP, nos dias 30 de setembro, 1º e 2 de outubro, e na Casa Farofa – Sala Teatro da Vertigem, nos dias 6, 7 e 8 de novembro de 2026. As apresentações têm entrada gratuita.

Escrita há 20 anos, a dramaturgia de Grace Passô é revisitada pelo coletivo sem uma transposição integral da história para os dias atuais. A proposta é investigar o que permanece reconhecível na estrutura familiar criada pela autora e, ao mesmo tempo, incorporar procedimentos e questões desenvolvidos durante o processo de criação universitário.

Em cena, a família é formada pela mãe, Joaquim, Pequeno e Graziele. Um quarto filho está ausente e mantém contato por telefone. Cada integrante encontra uma forma própria de escapar dos conflitos. Joaquim assume responsabilidades que ultrapassam seu papel de filho; Pequeno resiste ao processo de amadurecimento; Graziele se refugia na música; e a mãe tenta manter de pé uma estrutura marcada por ausências e segredos.

A precariedade financeira aparece principalmente nas ações e rubricas da dramaturgia. Caixas espalhadas pelo palco sugerem a possibilidade de despejo, enquanto objetos domésticos pendurados dão à casa um aspecto instável. A cenografia de Gustavo Feitosa inclui ainda uma porta vermelha, quadros vazios e panelas.


Vizinhos também entram em cena

Uma das escolhas da adaptação é ampliar a presença dos vizinhos, que no texto original permanecem fora do palco. Interpretados por dois músicos, eles ocupam outro plano da cena e assumem simultaneamente as funções de personagens e instrumentistas. Ligados a uma família de perfil elitista e conservador, observam e comentam a vida dos protagonistas.

A música também se transforma em elemento de tensão. Criada especialmente para o espetáculo por Caos Nicioli, a trilha reúne sonoridades eruditas e referências a músicas e ritmos populares. Executada ao vivo, acompanha as ações e ajuda a construir os diferentes ambientes da narrativa.

A configuração do Teatro Reynuncio Lima contribuiu para essa escolha. Os diferentes patamares existentes ao redor da área cênica permitem que os músicos apareçam em outro plano, reforçando a relação entre quem observa e quem é observado.


Entre personagem e realidade

A montagem preserva a estrutura fundamental de “Amores Surdos”, mas incorpora cenas e situações desenvolvidas pelo próprio coletivo a partir das rubricas e dos conflitos presentes no texto. Um dos procedimentos centrais é a quebra da relação convencional entre ator e personagem.

Os intérpretes deixam a ficção em determinados momentos para se apresentar como atores, receber o público ou comentar acontecimentos da própria encenação. Depois, retornam à narrativa. O recurso cria uma distância em relação à história e coloca em evidência os mecanismos de representação teatral.

O absurdo, característica marcante da dramaturgia de Grace Passô, também é preservado. O hipopótamo que aparece no texto ganha diferentes possibilidades de leitura. Pode ser entendido como um animal concreto ou como representação de algo que a família tenta esconder e que cresce até se tornar impossível de ignorar.

Com quatro atores e dois músicos em cena, a montagem combina teatro, música, dança, partituras corporais e projeções, criando uma linguagem que transita entre ficção e realidade.

 

Coletivo formado na universidade

Criado no segundo semestre de 2025, o Coletivo Êxodo reúne estudantes de diferentes regiões do Brasil e de São Paulo que se encontraram no curso de Artes Cênicas da UNESP. O grupo surgiu do interesse em experimentar uma criação teatral coletiva e horizontal, na qual os integrantes também possam assumir diferentes funções artísticas e técnicas durante a formação.

“Amores Surdos: O Balde de Lama e o (Ch)amado Silêncio” inaugura essa pesquisa, articulando formação acadêmica, experimentação de linguagem e produção teatral.

A temporada integra um projeto de extensão universitária contemplado em edital da UNESP e prevê apresentações gratuitas tanto no espaço da universidade quanto na Casa Farofa – Sala Teatro da Vertigem, ampliando a circulação da produção acadêmica para outros espaços e públicos.

 

 

 

Amores Surdos: O Balde de Lama e o (Ch)amado Silêncio
Duração: 60min
Classificação: 12 anos

Datas: 30 de setembro, 01 e 02 de outubro
Teatro Reynuncio Lima – Instituto de Artes da UNESP
Rua Jornalista Aloysio Biondi, 120, Barra Funda, São Paulo, SP
Horário: Quarta a sexta, às 20h
Entrada: gratuita, com ingressos via Sympla


Datas: 6, 7 e 8 de novembro de 2026
Casa Farofa - sala Teatro da Vertigem
Rua Treze de Maio, 240 - 1º Andar
Horário: Sexta a domingo, às 19h
Entrada: gratuita, com ingressos via Sympla