
Há 32 anos, a televisão brasileira testemunhava o início de um fenômeno que mudaria para sempre a relação do público com os animes. Em 1º de setembro de 1994, Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya) estreava no Brasil pela Rede Manchete. A chegada aconteceu de maneira discreta, mas poucos meses seriam suficientes para transformar a produção japonesa em uma das maiores febres infantojuvenis da década de 1990.
Naquele momento, a Manchete já tinha experiência com produções japonesas, principalmente séries do gênero tokusatsu, como Jaspion e Changeman. O anime, entretanto, representava uma novidade para grande parte do público brasileiro. A emissora inicialmente não tinha como prever o tamanho do impacto que a série teria.
A entrada de Saint Seiya na programação aconteceu por meio de uma negociação pouco convencional. A distribuidora Samtoy, representante da Bandai no Brasil naquele período, propôs uma permuta à Rede Manchete: a emissora receberia inicialmente 52 episódios gratuitamente em troca da veiculação de três comerciais dos bonecos da série. O acordo foi aprovado por Eduardo Miranda, responsável pela Divisão de Cinema da Manchete, que acreditou no potencial do anime.
O primeiro episódio, intitulado “As Lendas de uma Nova Era”, foi exibido em 1º de setembro. Diferentemente de grandes estreias televisivas, a chegada não contou com uma campanha de divulgação de grande proporção. A série entrou inicialmente no período da tarde, dentro do Clube da Criança.
A estratégia, porém, rapidamente mostrou resultado.
Em poucos meses, Os Cavaleiros do Zodíaco ganhou um segundo horário na programação. O anime passou a ser exibido também pela manhã, dentro do Dudalegria, enquanto uma reprise era apresentada no final da tarde, no Clube da Criança. Registros históricos da programação apontam horários próximos das 10h15 e 18h15 para essas exibições.
O crescimento da audiência foi expressivo. Segundo registros históricos da própria Rede Manchete, o anime ajudou a elevar a audiência da emissora em São Paulo de cerca de três para sete pontos no Ibope já no primeiro mês. No Rio de Janeiro, chegou a registrar médias de aproximadamente 14 pontos em suas duas exibições diárias.
A produção rapidamente passou a ser tratada como uma das grandes surpresas da programação de 1994. A própria história da emissora registra Os Cavaleiros do Zodíaco como responsável por um importante processo de recuperação de popularidade da Manchete entre o público infantojuvenil.
O sucesso também modificou a própria programação. No final de 1995 e início de 1996, o anime ganhou blocos próprios, apresentados por Mytsue Ikeda, deixando de depender exclusivamente dos programas que anteriormente serviam como faixa de exibição.
O impacto não ficou restrito aos índices de audiência. A chegada dos Cavaleiros impulsionou também a comercialização dos bonecos baseados nos personagens e ajudou a criar um mercado de produtos relacionados à animação.
Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão, Hyoga de Cisne, Shun de Andrômeda e Ikki de Fênix passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de crianças e adolescentes. As armaduras, as constelações e as batalhas pela proteção de Atena tornaram-se elementos reconhecidos mesmo por quem não acompanhava regularmente a série.
A dublagem brasileira, realizada pela Gota Mágica, também contribuiu para a construção da identidade nacional da produção. A música de abertura e as vozes dos personagens se tornaram parte da memória afetiva de uma geração.
O fenômeno ainda abriu espaço para que outras animações japonesas fossem importadas e exibidas no país. Entre os títulos que posteriormente encontraram espaço na televisão brasileira estavam Shurato, Samurai Warriors, Sailor Moon, Yu Yu Hakusho e Super Campeões.
A primeira passagem de Os Cavaleiros do Zodíaco pela Rede Manchete se estendeu por anos. A série permaneceu na programação até setembro de 1997 e voltou ao ar em janeiro de 1998, permanecendo na grade durante aquele ano.
Mais de três décadas depois, a importância daquela estreia continua evidente. Saint Seiya deixou de ser apenas um anime exibido em uma emissora brasileira e passou a ocupar um espaço permanente na cultura pop do país.
Em 1º de setembro de 2026, quando a estreia brasileira completa 32 anos, a data representa uma oportunidade para recordar não apenas os personagens e as batalhas, mas também um momento específico da televisão brasileira: aquele em que uma série japonesa chegou praticamente sem alarde e acabou se tornando um dos maiores fenômenos da década.
Para quem acompanhou a primeira exibição, a lembrança permanece associada às tardes e manhãs diante da televisão, à abertura que rapidamente virou um hino entre os fãs e à expectativa pelo próximo capítulo.
Para as novas gerações, os Cavaleiros continuam sendo apresentados por diferentes formatos e plataformas.
Mas foi naquela quinta-feira, 1º de setembro de 1994, que Seiya e seus companheiros começaram, oficialmente, a construir sua história no Brasil, uma história que, 32 anos depois, continua fazendo parte da memória afetiva de milhões de brasileiros.