
O Brasil ainda identifica apenas uma pequena parcela dos estudantes com altas habilidades e superdotação, apesar do crescimento no número de diagnósticos registrados nos últimos anos. Dados do Censo Escolar 2025, do Inep – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, apontam que cerca de 56 mil crianças e adolescentes com esse perfil estão matriculados na educação básica. O aumento em relação a 2024, quando pouco mais de 44 mil estudantes haviam sido identificados, é considerado positivo, mas ainda distante da realidade estimada por especialistas.
A diferença entre os dados oficiais e as projeções internacionais chama atenção. Segundo estimativa da OMS – Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 5% da população escolar apresenta altas habilidades ou superdotação. Considerando as cerca de 46 milhões de matrículas na educação básica brasileira, o país teria aproximadamente 2,3 milhões de estudantes com esse perfil, o que evidencia um grande número de crianças e adolescentes que ainda não foram identificados.
Especialistas explicam que as altas habilidades e a superdotação fazem parte das condições do neurodesenvolvimento e podem se manifestar por meio de aprendizagem acelerada, criatividade, intensa curiosidade, pensamento crítico, alta sensibilidade, perfeccionismo e necessidade constante de desafios intelectuais. Outro aspecto comum é o chamado desenvolvimento assíncrono, quando há diferenças significativas entre a idade cronológica, a maturidade emocional e o desempenho cognitivo.
A dificuldade de reconhecimento desde a infância faz com que muitos casos permaneçam invisíveis ao longo da vida. Em diversos casos, características relacionadas às altas habilidades podem ser confundidas com outras condições do neurodesenvolvimento, como TEA – Transtorno do Espectro Autista e TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o que pode atrasar o diagnóstico e impedir que a pessoa receba estímulos adequados.
Para Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera – Estimulação Cognitiva, identificar o perfil do estudante é apenas uma etapa do processo.
Segundo ela, o desenvolvimento das potencialidades depende da oferta de desafios compatíveis com as capacidades individuais, além de acolhimento e oportunidades de aprendizagem que respeitem as características de cada pessoa. Esse acompanhamento influencia não apenas o desempenho acadêmico, mas também o desenvolvimento emocional, social e a qualidade de vida.
O tema ganha destaque no Dia Internacional da Superdotação, celebrado em 10 de agosto. Para ampliar a conscientização sobre a condição, o Supera promoverá a live “Superdotação em foco: uma conversa sobre identificação, desenvolvimento e desafios”, reunindo especialistas para discutir os principais aspectos relacionados à identificação, ao desenvolvimento e às políticas públicas voltadas às pessoas com altas habilidades.
O debate ocorre em um contexto de mudanças na legislação brasileira. A Lei Federal nº 15.436 instituiu uma política nacional voltada aos estudantes com altas habilidades e superdotação, estabelecendo diretrizes para identificação, acompanhamento e desenvolvimento ao longo da trajetória escolar.
Entre as medidas previstas estão a criação de um cadastro nacional, a ampliação do atendimento educacional especializado e a possibilidade de flexibilização do percurso acadêmico de acordo com as necessidades e potencialidades de cada estudante. A legislação também reconhece a dupla excepcionalidade, incluindo estudantes que apresentam altas habilidades associadas a deficiência, TEA ou outros transtornos do neurodesenvolvimento.
A programação da live contará com a participação da psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades, da advogada Argene Silva, vice-presidente da Mensa Brasil, e de Angela Bubinak, coordenadora de eventos e parcerias da Mensa Paraná e mãe de crianças com altas habilidades.
A estimulação cognitiva é apontada como uma das ferramentas capazes de contribuir para o desenvolvimento dessas potencialidades. Metodologias baseadas em desafios progressivos, variedade de atividades e adaptação do nível de complexidade podem favorecer tanto o desenvolvimento cognitivo quanto competências socioemocionais, como flexibilidade, resiliência, comunicação e autorregulação, especialmente quando o estudante recebe estímulos compatíveis com seu potencial.